terça-feira, 25 de novembro de 2025

EFÉSIOS 1:19-23

Tendo compreendido a profundidade da oração de Paulo, especialmente seu pedido para que Deus iluminasse os olhos do coração dos crentes, avançamos agora para o ponto em que o apóstolo revela como esse poder divino se manifesta de forma suprema na obra de Cristo. É justamente nessa transição que entramos nos versículos 19 a 23, onde Paulo descreve a grandeza incomparável do poder de Deus e a exaltação de Jesus acima de todas as coisas.

A partir daqui, veremos de maneira mais detalhada a natureza desse poder que Paulo pede que Deus conceda aos crentes, um poder que não apenas salva, mas também sustenta, transforma e glorifica.

“19  e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; 20  o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,

3. A suprema grandeza do seu poder para com os que creem

Esse poder é o mesmo poder que Deus exerceu em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos (Ef 1:20).

Deus agiu com poder para realizar o Seu plano. Paulo mostra, logo no início do capítulo 2 de Efésios, o tamanho desse poder ao descrever a nossa antiga condição espiritual:

“Estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Efésios 2:1-3).

Ou seja, antes da ação poderosa de Deus, estávamos completamente perdidos, espiritualmente mortos, escravizados pelo pecado, submissos às paixões carnais e à influência de Satanás. Não havia em nós capacidade ou vontade de buscar a Deus, vivíamos segundo o curso deste mundo, afastados da vida que vem de Deus (Romanos 3:10-12; Efésios 4:18).

Mas é nesse cenário de total miséria espiritual que se manifesta “a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos” (Efésios 1:19). Pois “Deus, sendo rico em misericórdia, e por causa do grande amor com que nos amou, estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos” (Efésios 2:4-5).

Esse é o PODER que Paulo deseja que conheçamos, o poder que vivifica os mortos espirituais, que tira o homem das trevas e o transporta para o reino do Filho do Seu amor (Colossenses 1:13). É o poder que muda a natureza humana, que gera fé onde havia incredulidade, e que sustenta os crentes até o fim.

O fato de crermos, permanecermos firmes e continuarmos sendo transformados é resultado direto da eficácia da força desse poder. É por isso que nossa salvação não depende da nossa força, mas da fidelidade de Deus, que “há de completar a boa obra que começou em nós até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6).

Nada pode impedir o cumprimento do plano de Deus, e é nesse poder irresistível e eficaz que se baseia nossa segurança eterna.

Nada além do supremo poder de Deus poderia tirar o homem da morte espiritual e torná-lo participante da herança dos santos na luz (Cl 1:12-13).

Esse mesmo poder é o que nos sustenta na fé até o fim (1Pe 1:5). Por isso, cremos na segurança eterna do crente: quem foi chamado e salvo pelo poder de Deus não pode ser perdido, pois é Deus quem preserva o que Ele mesmo regenerou (Rm 8:38-39; Jo 6:37-39).

Esse poder ao qual Paulo se refere está diretamente ligado à salvação. Deus é poderoso para mudar todo o universo que conhecemos, alterar o clima e até deslocar montanhas (Salmos 65:6; Mateus 17:20). No entanto, o apóstolo fala de um poder específico, o poder de Deus para com os que creem, isto é, o poder da salvação.

Tendo compreendido como esse poder atua espiritualmente na vida dos crentes, podemos olhar para o contexto dos efésios e perceber como essa mensagem fazia sentido para eles.

Os efésios eram adoradores da deusa Diana e praticavam magia, feitiçaria e adivinhações. Quando se converteram ao Evangelho, demonstraram publicamente o arrependimento queimando todos os livros e objetos relacionados à idolatria (Atos 19:19). Mas eles poderiam ter se perguntado: “Agora que somos filhos de Deus, como podemos ver o Seu poder? Ainda ficamos doentes, ainda enfrentamos problemas, e agora passamos a ser perseguidos. Onde está, então, a manifestação desse poder?”

Essa é justamente a essência da mensagem que Paulo transmite: o poder de Deus não se manifesta necessariamente em grandes eventos visíveis ou em demonstrações extraordinárias, como milagres e sinais, mas atua principalmente na dimensão espiritual, nas regiões celestiais, e se manifesta em Cristo Jesus. Foi esse poder grandioso que o ressuscitou dentre os mortos e o fez assentar-se à direita de Deus nos lugares celestiais (Efésios 1:20; Filipenses 2:9-11).

Em resumo, o grande poder de Deus se revela:

  • No fato de Deus ter escolhido aqueles que seriam salvos (Efésios 1:4-5);
  • No fato de Cristo ter morrido por esses escolhidos na cruz (Romanos 5:8);
  • No fato de Deus chamar irresistivelmente por meio da pregação da Palavra (Romanos 10:17; João 6:44);
  • Em dar vida àqueles que estavam espiritualmente mortos (Efésios 2:1,5);
  • Em conceder o Espírito Santo para sustentar os crentes até o fim (Efésios 1:13-14; Filipenses 1:6).

É nisso que se manifesta o poder de Deus para conosco: em nos resgatar deste mundo, perdoar os nossos pecados, dar-nos nova vida, nos regenerar, conceder-nos o Espírito Santo e nos preservar para a salvação eterna, a qual está reservada para o povo de Deus (1 Pedro 1:3-5).

E é tão grande esse poder que Paulo tenta explicá-lo utilizando quatro palavras diferentes na língua grega para descrevê-lo, todas presentes em Efésios 1:19:

“E qual a suprema grandeza do seu poder¹ para com os que cremos, segundo a eficácia² da força³ do seu poder⁴” (Efésios 1:19).

Paulo emprega quatro termos gregos distintos para expressar a grandiosidade do poder de Deus:

1.    Poder — do grego dýnamis, de onde vem a palavra dinamite, indicando força ativa, capacidade de realizar algo com eficácia (Atos 1:8);

2.    Eficácia — do grego enérgeia, de onde vem o termo energia, significando ação operante, atividade eficaz de Deus (Filipenses 3:21);

3.    Força — do grego krátos, que dá origem a palavras como democracia (“poder do povo”), e expressa domínio, autoridade e soberania (1 Pedro 5:11);

4.    Poder — do grego ischýs, que significa capacidade, vigor, força interior para realizar grandes feitos (Marcos 12:30).

Paulo reúne essas quatro palavras para tentar transmitir a imensidão do poder divino. Esse é o poder que realiza o maior de todos os milagres: a conversão de um pecador a Jesus Cristo (2 Coríntios 5:17).

E esse poder não cessa após a conversão; ele continua operando na vida do crente, sustentando-o e fazendo-o perseverar na fé até o fim (Filipenses 1:6).

É esse poder que nos tira da morte para a vida (Efésios 2:1,5), das trevas para a luz (Colossenses 1:13), e da escravidão do pecado para a liberdade em Cristo Jesus (Romanos 6:22). Somente esse poder pode transformar por completo a vida de qualquer pessoa.

20  o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,

Paulo, após descrever o grande poder de Deus que age na conversão dos crentes, poder que transforma filhos da perdição em filhos de Deus (Efésios 2:3-5; João 1:12-13), não se contenta em apenas falar sobre essa grandeza, mas mostra onde esse poder é revelado de forma mais clara e perfeita: em Jesus Cristo.

O mesmo poder que Deus exerceu em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o assentar-se à Sua direita nos lugares celestiais, é o poder que opera também em nós, os que cremos (Efésios 1:19-20).

A ressurreição de Jesus é, portanto, a maior demonstração da força divina que também atua na vida dos crentes.

Diferente das outras ressurreições registradas na Bíblia, como a do filho da viúva de Sarepta (1 Reis 17:22), a do homem que tocou os ossos de Eliseu (2 Reis 13:21), a de Lázaro (João 11:43-44) e a da menina Tabita (Atos 9:40-41), a ressurreição de Cristo é única e superior a todas elas.

As demais pessoas ressuscitadas voltaram à vida em corpos corruptíveis e, por isso, morreram novamente.

Mas Cristo ressuscitou em um corpo incorruptível e glorioso (1 Coríntios 15:42-44), imortal e eterno, que vive e reina até hoje (Romanos 6:9).

Foi essa a razão pela qual Paulo cita especificamente a ressurreição de Cristo: ela é a expressão máxima do poder de Deus.

A ressurreição de Jesus inaugura uma nova humanidade. Ele é chamado de “o primogênito dentre os mortos” (Colossenses 1:18; Apocalipse 1:5), pois foi o primeiro a receber um corpo glorificado, modelo do corpo que será dado aos que creem (Filipenses 3:20-21). Assim, Cristo é o princípio de uma nova criação, o novo homem, que vive para sempre diante de Deus.

Depois de ressuscitar Jesus, Deus o exaltou aos céus, e esse acontecimento foi testemunhado pelos discípulos (Atos 1:9-11) e profetizado por Davi, que disse:

“Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Salmos 110:1; Atos 2:34-35).

Cristo havia se esvaziado de Sua glória e posição original (Filipenses 2:6-8), assumindo a forma de servo e se humilhando até a morte. Mas Deus o exaltou soberanamente, restituindo-lhe toda a glória e majestade (Filipenses 2:9-11).

Agora, Cristo está assentado à direita de Deus não apenas como Deus, mas também como homem.

Isso significa que há um de nós, um homem perfeito, assentado no trono de Deus, representando toda a humanidade redimida (1 Timóteo 2:5; Hebreus 9:24). Deus demonstrou Seu poder revertendo todo o estado de humilhação que Cristo suportou aqui na Terra e restaurando lhe toda a glória da qual Ele havia se esvaziado para se fazer um de nós.

21  acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro

O terceiro ato do poder de Deus revelado em Jesus Cristo é a exaltação. Cristo é chamado de o segundo Adão (1 Coríntios 15:45-47). O primeiro Adão foi criado por Deus para dominar sobre toda a criação (Gênesis 1:26-28), as falhou, desobedecendo e trazendo a morte sobre toda a humanidade (Romanos 5:12). Porém, Cristo, o segundo Adão, não falhou. Ele obedeceu plenamente ao Pai e, por isso, foi exaltado sobre todo principado, potestade, poder e domínio (Filipenses 2:9-11).

Essa expressão se refere aos poderes e hierarquias espirituais existentes nos céus. Nas regiões celestiais há ordens angelicais, como principados, potestades, tronos e dominações (Colossenses 1:16), e Cristo foi colocado acima de todas elas. Isso significa que todo o reino espiritual, seja de anjos bons ou maus, está subordinado a Cristo Jesus (1 Pedro 3:22). Nenhum poder angelical, celestial ou demoníaco, pode se comparar à autoridade do Filho de Deus.

Essa afirmação de Paulo também confronta diretamente a crença dos efésios. O povo de Éfeso venerava a deusa Diana (ou Ártemis), considerada a rainha dos céus e dos poderes espirituais (Atos 19:27-28). Paulo, porém, declara que não é Diana quem reina sobre os poderes do universo, mas sim Cristo Jesus, Senhor de todas as coisas, acima de qualquer poder, autoridade ou ser celestial.

Mas a exaltação de Cristo não se limita ao mundo espiritual. Paulo acrescenta que Ele está “acima de todo nome que se possa referir” ou seja, acima de qualquer autoridade humana. Títulos de honra e autoridade, como digníssimo, excelentíssimo, vossa majestade ou vossa santidade, não se comparam à majestade e soberania do nome de Jesus, diante do qual todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Ele é o Senhor (Filipenses 2:10-11).

E Paulo completa: “não só no presente século, mas também no vindouro”. Isso quer dizer que Cristo já reina agora, já possui toda autoridade (Mateus 28:18), e continuará reinando eternamente. No futuro, quando Ele vier em glória, Seu reinado será plenamente revelado e visível a todos os povos (Apocalipse 19:11-16).

Assim, o poder de Deus manifestado em Cristo culmina em Sua exaltação suprema, onde Ele reina sobre todas as coisas, no céu e na terra, agora e para sempre.

22  E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, 23  a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas.”

Deus colocou todas as coisas debaixo da autoridade de Cristo, e por isso Ele é chamado Senhor (Filipenses 2:11).

O Pai entregou todas as coisas nas mãos do Filho (Mateus 28:18; João 3:35). Tudo o que existe, no céu e na terra, submete-se ao governo soberano de Cristo (Colossenses 1:16-17).

Sem Cristo, há um vazio espiritual e existencial, pois Ele é aquele que dá sentido e plenitude a toda a criação. A analogia de “Cristo como a peça que completa o quebra-cabeça” é válida se compreendida à luz das Escrituras: tudo foi criado por Ele e para Ele, e nele tudo subsiste (Colossenses 1:16-17). Portanto, sem Cristo, nada é completo, pois Ele é a plenitude de todas as coisas, e a igreja é o lugar onde essa plenitude se manifesta (Efésios 1:23).

Cristo enche todas as coisas, ou seja, Ele é quem dá propósito, ordem e sentido à criação (Efésios 4:10). E Paulo ora para que os crentes sejam iluminados e compreendam a grandeza da herança gloriosa de Deus nos santos, isto é, a igreja, o povo reunido em Seu nome (Efésios 1:18). Aos olhos humanos, a igreja pode parecer cheia de falhas, divisões e fraquezas; porém, espiritualmente, é o corpo de Cristo, a plenitude de sua presença e manifestação (1 Coríntios 12:27). É nela que podemos ver traços do poder transformador de Deus como reconciliação, amor, perdão, união e boas obras (João 13:35; Efésios 2:10). Mas apenas no mundo vindouro essa transformação será plenamente revelada, quando o processo da santificação for completado (1 João 3:2).

Em Efésios, esta é a primeira vez que Paulo usa a palavra “igreja” (Efésios 1:23). É nela que Cristo se completa, não no sentido de insuficiência, mas de manifestação: Cristo se expressa plenamente através da igreja, assim como a igreja se realiza em Cristo. Há uma união perfeita e inseparável, Cristo é a cabeça, e a igreja é o corpo (Colossenses 1:18). Ambos são distintos em função, mas um só em natureza e propósito.

 

Lições extraídas do texto:

1.    Mediante visão espiritual, enxergamos o poder de Deus agindo na igreja. A verdadeira percepção do poder divino depende de olhos espiritualmente iluminados (Efésios 1:18).

2.    Paulo não apenas ora, mas também ensina. Ele pede iluminação espiritual, mas também explica o conteúdo dessa iluminação. Assim, o crescimento espiritual ocorre não só através da oração, mas também pelo estudo da Palavra revelada (2 Timóteo 3:16-17).

3.    Compreender que estamos unidos a Cristo na morte e na ressurreição. Isso nos dá segurança eterna, coragem diante das perseguições e esperança na ressurreição futura (Romanos 6:5-8; Colossenses 3:1-3).

4.    Cristo intercede por nós. Ele, como homem glorificado, está à direita de Deus intercedendo por nós (Romanos 8:34; Hebreus 7:25).

5.    Cristo está sobre todas as coisas, inclusive nossos inimigos. Ele reina soberanamente sobre todos os poderes e circunstâncias (Efésios 1:22).

6.    Devemos valorizar a igreja. A igreja é o corpo de Cristo, o lugar onde Cristo vive e se manifesta (1 Coríntios 12:27; Efésios 4:15-16). Por isso, devemos amar, servir e nos envolver com ela, pois quem ama Cristo, ama também o Seu corpo.

Aplicações práticas

  • Nossa alegria deve estar em Cristo Jesus, e não em coisas materiais, conquistas ou vitórias passageiras (Filipenses 4:4).
  • Se alguém se sente inseguro quanto à sua salvação ou eleição, deve ir humildemente até Deus e pedir que Ele ilumine os olhos do seu coração (Efésios 1:18), para compreender a grandeza do Seu poder e graça.
  • Se alguém está vacilando na fé, deve olhar para Jesus, e não para o mundo (Hebreus 12:2).
  • Assim como Pedro afundou ao tirar os olhos de Cristo (Mateus 14:30), também nós tropeçamos quando deixamos de olhar para o nosso Salvador.

 

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