A queda histórica, o engano da serpente e a responsabilidade humana
Gênesis 3:1–13 (RA) registra um dos relatos mais decisivos de toda a
Escritura. É a partir desse capítulo que passamos a compreender a origem do
pecado, da culpa, do sofrimento, da morte e da ruptura na relação entre Deus e
a humanidade. Sem essa passagem, torna-se impossível entender corretamente
tanto a condição humana quanto a necessidade da redenção que culmina em Cristo.
Por isso, estudar Gênesis 3 não é apenas olhar para o passado, mas lançar luz
sobre toda a narrativa bíblica, desde a queda até a restauração prometida.
“1 Mas a serpente, mais sagaz
que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher:
É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?
O início da
tentação
O texto começa
com a conjunção “mas”, que estabelece um contraste direto com o relato
anterior, onde homem e mulher estavam nus e não se envergonhavam (Gn
2:25, RA). Esse “mas” indica uma mudança drástica
na narrativa: a harmonia e a inocência descritas antes estavam prestes a ser
quebradas.
A serpente é
apresentada como o animal mais sagaz entre os animais selváticos que o Senhor
Deus havia criado. Essa sagacidade não foi criada para o mal; trata-se de uma
característica originalmente boa. Contudo, Satanás se aproveita desse atributo
para utilizar a serpente como instrumento da tentação (Ap
12:9; 20:2, RA).
O texto não
afirma que a serpente originalmente se arrastava pelo chão. Pelo contrário, a
maldição posterior indica uma mudança em sua condição (Gn
3:14, RA), sugerindo que sua forma original era
diferente da que conhecemos hoje.
Por que a mulher
foi tentada primeiro?
A pergunta sobre
por que a serpente abordou Eva, e não Adão, não encontra uma resposta explícita
no texto bíblico. Existem muitas especulações, inclusive argumentos de cunho
machista, que afirmam que a mulher seria mais fraca ou mais facilmente
influenciável. Biblicamente, porém, a ideia de “vaso mais fraco” refere-se ao
aspecto físico, não intelectual ou moral (1Pe 3:7, RA).
Além disso, Adão
também foi enganado e caiu em desobediência (Gn 3:6, RA), o que demonstra que a fragilidade não estava restrita
à mulher. Ambos tinham conhecimento claro da ordem divina.
A proibição de
comer do fruto foi dada diretamente a Adão (Gn 2:16–17, RA), e tudo indica que ele comunicou essa ordem a Eva. Isso
é perceptível quando Eva responde usando o plural: “do fruto da árvore que está
no meio do jardim, disse Deus: dele não comereis” (Gn 3:3, RA). O texto não permite afirmar se Deus posteriormente deu
essa ordem diretamente a Eva ou não. O fato é que ela conhecia a proibição.
Até mesmo a
serpente demonstra conhecer o mandamento, embora o distorça de forma sutil,
lançando dúvida sobre a palavra de Deus. Essa estratégia visa confundir,
questionar e enfraquecer a confiança da mulher no caráter divino (Gn
3:1, RA).
A serpente que
fala
O texto não
registra qualquer espanto da mulher ao ouvir a serpente falar. Isso pode
indicar que, naquele contexto, esse animal possuía capacidades que hoje não
existem mais. A Bíblia apresenta outros relatos extraordinários envolvendo
animais, como a jumenta de Balaão, que falou por intervenção divina (Nm
22:28–30, RA).
É possível que,
antes da queda, os animais tivessem habilidades hoje desconhecidas, mas a
Escritura não se aprofunda nesse ponto. O foco do texto não é a capacidade da
serpente, mas a desobediência humana.
Dificuldade em
aceitar o relato
Algumas pessoas
têm dificuldade em aceitar a existência de uma serpente que falava no Éden.
Contudo, esse problema não se limita a Gênesis 3. Na verdade, começa em Gênesis
1, onde lemos que Deus criou todas as coisas do nada (Gn
1:1, RA).
Se aceitamos que
Deus criou o universo inteiro pela sua palavra, não há razão lógica para
rejeitar outros milagres bíblicos, como Jonas permanecer três dias no ventre de
um grande peixe (Jn 1:17, RA), Jesus
andar sobre as águas (Mt 14:25, RA) ou a
própria ressurreição de Cristo (Mt 28:5–6, RA).
Dificuldade em
aceitar esses relatos não revela um problema com a narrativa bíblica, mas com o
próprio Deus, que é o autor soberano de tudo o que foi revelado nas Escrituras.
A resposta de
Eva e o avanço da tentação
Retomando o
ponto central do texto, a serpente questiona Eva sobre a veracidade da ordem
divina, perguntando se realmente era proibido comer de todas as árvores do
jardim. Eva então responde:
2 Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores
do jardim podemos comer, 3 mas do fruto
da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem
tocareis nele, para que não morrais.
Na tentativa de
defender a ordem de Deus, Eva afirma corretamente que podia comer do fruto das
árvores do jardim, mas que havia uma árvore específica cujo fruto não deveria
ser comido. Contudo, nesse ponto, percebe-se um problema sutil, porém
significativo: Eva acrescenta algo que Deus não havia dito. Deus havia ordenado
apenas que não comessem do fruto (Gn 2:16–17, RA); em nenhum momento proibiu o toque.
Esse acréscimo
revela que a conversa já havia ido longe demais. Eva não deveria ter dado
espaço ao diálogo com a serpente. Ao prolongar a conversa, ela se torna
vulnerável, e a serpente passa então a contradizer frontalmente a palavra de
Deus.
A negação direta
da palavra divina
4 Então, a serpente disse à mulher: É certo que
não morrereis.
Aqui a serpente
se apresenta como uma suposta fonte de verdade, como alguém que sabe mais do
que Deus e que possui um conhecimento oculto. Ela sugere que Deus estaria
escondendo algo do casal e afirma, de forma direta, que a palavra divina é
falsa.
Alguns
argumentam que a serpente não mentiu, pois Adão e Eva não morreram
imediatamente após comerem do fruto. No entanto, essa interpretação ignora o
ensino bíblico mais amplo. Jesus afirma que o diabo “é mentiroso e pai da
mentira” (Jo 8:44, RA). A morte anunciada
por Deus não se restringia ao aspecto físico imediato, mas incluía a morte
espiritual, a separação de Deus e, posteriormente, a morte física (Gn
3:19; Rm 5:12, RA).
Sustentar que a
serpente disse a verdade é repetir a própria estratégia do engano:
reinterpretar a palavra de Deus para esvaziar seu significado.
A distorção do
caráter de Deus
A serpente não
apenas contradiz Deus, mas também ataca seu caráter:
5 Porque Deus sabe que no dia em que dele
comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do
mal.
Se ela afirma
que não haveria morte, precisa justificar por que Deus teria dado tal ordem.
Para isso, utiliza uma meia verdade. De fato, após comerem do fruto, os olhos
do casal se abriram, e eles passaram a ter conhecimento do bem e do mal (Gn
3:7, RA). Contudo, esse conhecimento não era
equivalente ao conhecimento de Deus.
Deus conhece o
bem e o mal de forma santa, soberana e absoluta. O ser humano passou a conhecer
o mal por experiência, por meio da desobediência, da culpa e da corrupção.
Portanto, a afirmação de que seriam “como Deus” é uma mentira disfarçada de
verdade.
Além disso, a
serpente pinta Deus como alguém egoísta, que estaria tentando impedir o
crescimento e a realização do ser humano. Essa distorção do caráter divino é
uma das armas mais eficazes do engano até hoje.
A atuação do mal
através da serpente
A Escritura
afirma que, ao concluir sua obra criadora, Deus viu que tudo era muito bom (Gn
1:31, RA). Portanto, Deus não criou a serpente como
um ser mau. O mal se manifestou posteriormente, por meio de um adversário que
se opôs à obra de Deus.
A Bíblia
identifica esse adversário como Satanás (Ap 12:9, RA). No entanto, o texto de Gênesis não explica de forma
detalhada como se deu essa atuação. Não sabemos se houve uma possessão direta,
se foi algum tipo de manifestação sobrenatural ou outro meio pelo qual o
maligno utilizou a serpente. O texto não entra nesses detalhes porque esse não
é o foco principal.
O ponto central
é que o mal agiu por meio do animal mais astuto, enganou Eva e obteve êxito em
sua estratégia.
A omissão das
consequências
A serpente omite
deliberadamente a parte mais importante de toda a história: as consequências da
desobediência. Ela promete conhecimento, mas esconde o preço desse
conhecimento. O resultado não seria liberdade, mas escravidão; não seria
exaltação, mas queda.
Ao desobedecerem
a Deus e darem ouvidos à serpente, Adão e Eva se tornaram servos daquele a quem
obedeceram. A Escritura ensina que “daquele a quem vos ofereceis como servos
para lhe obedecer, desse mesmo sois servos” (Rm 6:16, RA).
Assim, o plano
do adversário não era simplesmente informar, mas levar o ser humano à rebelião,
rompendo sua comunhão com Deus e usurpando aquilo que o Senhor havia criado
para sua glória.
6 ¶ Vendo a mulher que a
árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar
entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.
A mulher passa a
olhar para a árvore com outros olhos. Antes, ela via aquela árvore como via
todas as demais, sem qualquer desejo especial. Porém, o engano da serpente
altera sua percepção. A tentação sempre age dessa forma: não cria algo novo,
mas distorce aquilo que já existe.
O texto destaca
três aspectos que passam a atrair Eva: a árvore parecia boa para se comer,
agradável aos olhos e desejável para dar entendimento. Esses três elementos
revelam o processo interno do pecado: desejo físico, atração visual e ambição
intelectual. O que antes era avaliado segundo a palavra de Deus agora passa a
ser avaliado segundo o desejo humano.
Até esse
momento, o referencial de certo e errado, bem e mal, era o próprio Deus. Ele
definia o que era bom e o que era mau (Gn 2:16–17, RA). Agora, Eva deseja possuir esse critério em si mesma,
discernindo por conta própria, estabelecendo suas próprias regras. Esse é o
cerne do pecado: o desejo de autonomia moral, de ser como Deus.
A tragédia que
muda toda a história
Aqui ocorre o
pior acontecimento já registrado na história da humanidade. Neste ponto nasce o
pecado, e com ele entram no mundo a morte, o sofrimento, as enfermidades e a
dor (Rm
5:12, RA). Eva cede à tentação, toma do fruto, come
e o entrega ao marido, que também come.
É importante
observar o final do verso, quando lemos: “deu também ao marido, e ele comeu” (Gn
3:6, RA). A Nova Versão Internacional (NVI)
traz uma nota de rodapé esclarecendo que a expressão pode ser entendida
como:
“seu marido, que
estava com ela”, indicando que Adão estava
presente no momento em que Eva tomou e comeu do fruto.
Essa
possibilidade de leitura não é forçada. O texto hebraico permite essa
construção, e isso explica por que algumas traduções e versões antigas deixam
explícita a presença de Adão naquele momento. Uma delas expressa o verso da
seguinte forma:
“E vendo a mulher que aquela
árvore [era] boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para
dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e
[ele] comeu com ela” (Gn 3:6, DO).
Essa leitura nos
ajuda a compreender que Eva não saiu procurando Adão depois de comer do fruto.
O relato é rápido e contínuo: o mesmo fruto que ela comeu, ele comeu junto com
ela.
Isso reforça uma
conclusão importante: Adão estava ali o tempo todo. Ele não se opôs, não
interrompeu, não defendeu a ordem de Deus. Apenas assistiu a tudo e também se
deixou enganar pela mentira da serpente. O mesmo desejo que tomou Eva tomou
também Adão, e por isso ele não se posicionou contra o erro. Sua omissão não o
isenta de culpa; ao contrário, o torna participante direto da queda.
As consequências
imediatas do pecado
7 Abriram-se, então, os olhos de ambos; e,
percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para
si.
Quatro ações
rápidas descrevem a maior tragédia do mundo: tomou, comeu, deu, comeu. Em
seguida, ocorre a queda. Eles perdem a condição santa na qual foram criados,
inicia-se a jornada rumo à morte anunciada por Deus (Gn
2:17; 3:19, RA) e começa a maldição que
recairia sobre toda a descendência humana.
O primeiro
efeito do pecado não foi sabedoria, mas vergonha. Os olhos se abriram, e a
primeira percepção foi a nudez. Antes, estavam revestidos de pureza e santidade
e não se envergonhavam (Gn 2:25, RA). Agora, tentam esconder sua condição usando folhas de
figueira, substituindo a glória que tinham por algo frágil, temporário e
insuficiente.
O medo e o
afastamento de Deus
8 Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que
andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus,
o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim.
Tudo acontece
rapidamente. Logo após comerem do fruto, fazem roupas improvisadas e, ao
ouvirem Deus, escondem-se entre as árvores. Aquilo que antes era belo e
agradável agora se torna refúgio para a fuga.
O fruto não os
aproximou de Deus; produziu medo, vergonha e afastamento. O Criador que os
havia feito santos, perfeitos e os colocado em um ambiente ideal agora é visto
como alguém de quem se deve fugir. Tudo isso acontece por causa de uma meia
verdade e do desejo de serem como Deus.
O chamado de
Deus e a responsabilidade de Adão
9 ¶ E chamou o SENHOR Deus ao
homem e lhe perguntou: Onde estás?
A ordem da
narrativa se inverte. Antes, a serpente fala com Eva e Eva envolve Adão. Agora,
Deus chama primeiro Adão. Isso ocorre porque Adão era o responsável, o cabeça,
aquele a quem a ordem foi dada diretamente (Gn 2:16–17, RA). Ele foi omisso, conivente e cúmplice.
A pergunta de
Deus não é informativa, mas pedagógica. Deus sabia onde eles estavam e o que
havia ocorrido. A pergunta visa despertar consciência: por que estás escondido?
Vergonha e
confissão parcial
10 Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e,
porque estava nu, tive medo, e me escondi.
Adão associa sua
nudez ao medo. Para o povo a quem Moisés narrava essa história, estar nu era
símbolo de humilhação, vergonha e derrota. Diferente da cultura atual, onde a
nudez muitas vezes é celebrada, para aquele contexto era algo profundamente
constrangedor.
Adão reconhece o
medo, mas ainda não reconhece plenamente a culpa.
A revelação do
pecado
11 ¶ Perguntou-lhe Deus: Quem
te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não
comesses?
Deus faz duas
perguntas, sendo a segunda a resposta da primeira. Eles sempre estiveram nus,
mas só agora isso se torna um problema. Antes, eram puros, viviam em um
ambiente perfeito, sem espinhos, sem pragas, sem sofrimento. Agora, após a
queda, passam a julgar a si mesmos, e o primeiro julgamento é: estar nu é
errado.
A transferência
de culpa
12 Então, disse o homem: A mulher que me deste
por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi.
Adão não assume
a responsabilidade. Ele transfere a culpa para a mulher e, de forma indireta,
para o próprio Deus: “a mulher que me deste”. Em outras palavras, sua resposta
sugere: eu estava bem antes; foi o Senhor quem disse que não era bom que eu
estivesse só (Gn 2:18, RA).
O pecado não
apenas rompe a relação com Deus, mas também destrói a harmonia entre as
pessoas, gerando acusações, justificativas e fuga da responsabilidade.
13 Disse o SENHOR Deus à mulher: Que é isso que
fizeste? Respondeu a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.
Após questionar
Adão, Deus dirige-se agora à mulher. Assim como Adão, Eva não nega o ato, mas
transfere a responsabilidade. Ela afirma que foi enganada pela serpente, o que
de fato é verdadeiro (2Co 11:3, RA),
porém isso não a isenta de culpa. Ambos participaram conscientemente da
desobediência.
Chama atenção o
fato de que, até aqui, não há pedido de perdão, nem arrependimento sincero, nem
confissão voluntária do pecado. O medo e a vergonha já se manifestaram, mas, em
vez de conduzirem ao arrependimento, produziram tentativas inúteis de justificar-se
e transferir a culpa. Isso revela que a morte espiritual já está em ação.
Antes da queda,
a presença de Deus era prazerosa, um deleite. Agora, restam apenas medo e
vergonha diante do Criador, o que evidencia a ruptura do relacionamento (Is 59:2, RA).
Seria o fim do
plano de Deus?
Diante desse
cenário, surge uma pergunta natural: tudo foi perdido? O que Deus criou com
tanto amor chegou ao fim? A resposta não aparece imediatamente neste verso, mas
será revelada adiante. Por enquanto, é importante continuar atentos à mensagem
que Moisés deseja transmitir ao povo de Israel.
Moisés narra
esse episódio aos israelitas ainda fora da terra prometida. Ele mostra que o
mundo em que vivem não é como o Éden. Por mais fértil, belo, seguro ou
agradável que seja qualquer lugar vale, montanha ou planície, nada se compara
ao jardim que foi perdido. O sofrimento, os perigos, a fome e as dificuldades
continuariam existindo, mesmo na terra prometida.
Essa narrativa
prepara o povo para compreender que a promessa da terra não significava
ausência de problemas, mas a presença de Deus em meio a um mundo já caído.
A continuidade
do engano e da idolatria
Moisés também
ensina que o ser humano continua capaz de desobedecer a Deus, mesmo conhecendo
o bem e o mal. Esse conhecimento é limitado, corrompido e facilmente enganável.
O mesmo poder maligno que atuou no Éden continuava ativo no mundo, afastando o
homem de Deus por meio da idolatria e da falsa religião.
Esse poder é
mencionado claramente quando Moisés afirma:
“Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; a deuses que não
conheceram, novos deuses que vieram há pouco, dos quais não se estremeceram
seus pais.” (Deuteronômio 32:17 RA)
Essa é a
primeira vez que a Escritura menciona explicitamente os demônios. Moisés ensina
que os ídolos e os deuses estranhos não são meras invenções humanas, mas
instrumentos espirituais de engano, cujo objetivo é afastar o homem do
verdadeiro Deus.
Esses poderes
não se apresentam como demônios, mas de forma sutil, revestidos de aparência de
verdade. Por fora parecem corretos e atraentes; por dentro são engano e
conduzem na direção oposta à vontade de Deus.
A proibição da
idolatria e sua raiz espiritual
Moisés reforça
esse ensino ao afirmar:
“Nunca mais oferecerão os seus sacrifícios aos demônios, com os quais
eles se prostituem; isso lhes será por estatuto perpétuo nas suas gerações.”
(Levítico 17:7 RA)
Essa é a segunda
vez que a palavra “demônios” aparece na Bíblia. O texto deixa claro que toda
idolatria possui um poder espiritual por trás. É o mesmo poder que atuava no
jardim do Éden, agora manifestado de outras formas ao longo da história.
No final das
Escrituras, o apóstolo João identifica claramente quem estava por trás daquele
episódio inicial:
“E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e
Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele,
os seus anjos.” (Apocalipse 12:9 RA)
“Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o
prendeu por mil anos;” (Apocalipse 20:2 RA)
João trata
Gênesis 3 como um fato histórico, e não como uma fábula ou alegoria. Lá no
final da Bíblia, ele se refere a esse episódio como algo real, concreto, que de
fato aconteceu. Não se trata, mais uma vez, de uma história simbólica ou de um
conto infantil, como João e Maria ou Chapeuzinho Vermelho.
Isso aconteceu
de verdade. Negar esse evento é negar a própria história da humanidade. Retirar
Gênesis 3 da Bíblia é retirar todas as respostas para a existência de tanta
maldade no mundo: engano, sofrimento, dor, perda, morte e pecado. João deixa
claro quem estava por trás disso desde o início: Satanás, o sedutor, o
adversário de Deus. E o próprio nome “Satanás”, no original, significa
exatamente isso: adversário.
O testemunho de
Cristo sobre o Éden
O próprio Jesus
confirma essa realidade:
“Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os
desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade,
porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é
próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” (João 8:44 RA)
Cristo chama
Satanás de homicida porque, por meio do engano, trouxe a morte espiritual e,
posteriormente, a morte física à humanidade (Rm 5:12, RA). Chama-o de mentiroso porque desde o início distorceu a
palavra de Deus e enganou Eva.
Assim,
questionar Gênesis 3 não é apenas questionar Moisés, mas o próprio testemunho
de Cristo.
A bondade de
Deus em meio à queda
Outro ponto
central que Moisés deseja transmitir é a bondade de Deus. Mesmo após o pecado,
Deus vai ao encontro de Adão e Eva. Ele os procura, chama e confronta,
oferecendo oportunidade de arrependimento.
Da mesma forma,
Deus não abandonou o povo de Israel, que passou quarenta anos no deserto
murmurando, provocando e se envolvendo com idolatria. Ainda assim, o Senhor
permaneceu fiel e os conduziu à terra prometida. Esse é o caráter de Deus:
justo, mas bondoso e misericordioso (Êx 34:6–7, RA).
O pecado começa
na mente
Outro ponto
importante é que o pecado começa na mente. Em alguns lugares se prega que o que
o diabo quer é tirar a sua saúde, a sua riqueza, o seu emprego, o seu carro do
ano ou destruir o seu casamento. Mas não é só isso. O que ele realmente quer é
a sua mente. A guerra acontece primeiro na mente.
Vimos no
episódio do jardim que o pecado se desenvolve quando damos conversa ao
tentador, quando damos oportunidade, quando fixamos a mente e o coração naquilo
que Deus não permitiu. Não deveríamos sequer dar espaço para diálogo, pois,
assim como aconteceu com Eva, acontecerá com qualquer um de nós.
Não é por acaso
que uma das ordens de Deus ao povo, ao entrar na terra prometida, era destruir
e derrubar todos os ídolos que ali existissem, para que não entrassem na mente
do povo e não dessem ocasião ao pecado. Devemos evitar toda ocasião propícia ao
pecado. Manter conversa com o tentador terminou de forma trágica para toda a
humanidade. Em outras palavras, não devemos apenas fugir do pecado, mas de tudo
aquilo que nos leva a pecar (1Ts 5:22, RA).
Aplicações
práticas
- a origem do mal não está em Deus, mas na
rebelião contra Ele
- o ser humano possui responsabilidade moral
por suas escolhas
- fuja de tudo aquilo que pode levar ao
pecado: imagens, palavras, ambientes, negócios, associações ou
relacionamentos
- se Satanás enganou Eva antes do pecado,
quanto mais nós, já corrompidos
- para aqueles que têm medo do castigo: não
fujam de Deus; arrependam-se, confessem e peçam perdão (1Jo 1:9, RA)
- o medo e a vergonha diante de Deus podem
ser sinais de reverência e reconhecimento da própria condição; não se
esconda, Deus está te procurando
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