quarta-feira, 7 de agosto de 2024

ATOS DOS APÓSTOLOS (7:1-16)

A Defesa de Estêvão: Da Herança de Abraão à Promessa de Canaã

“1 ¶ Então, lhe perguntou o sumo sacerdote: Porventura, é isto assim? 2  Estêvão respondeu: Varões irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã,

Estêvão inicia sua defesa perante o Sinédrio chamando todos ali de forma respeitosa e considerando-se irmãos de todos, pois era também descendente de Abraão e, portanto, israelita (Atos 7:2). Já que estamos falando de descendência, vamos abordar dois termos bastante evidentes, um deles no Antigo Testamento e outro mais evidente no Novo Testamento: Hebreus e Israelitas.

A origem do termo "hebreus" está associada ao nome "Eber," conforme mencionado no livro de Gênesis (Gênesis 10:21). Os hebreus são considerados uma ramificação dos descendentes de Sem. Portanto, todos os judeus, israelitas e ismaelitas são hebreus. No entanto, é importante destacar que a identidade "hebreu" é mais ampla e não se restringe apenas a um grupo específico dentro dos descendentes de Abraão.

Quando falamos em israelitas, estamos nos referindo especificamente aos descendentes de Jacó, que teve seu nome mudado para Israel (Gênesis 32:28). Jacó, pai de José do Egito e de mais 11 filhos (Gênesis 37:3), gerou as 12 tribos de Israel. Cada tribo é nomeada de acordo com um de seus filhos. Jesus nasceu como descendente de Judá, que foi o quarto filho de Jacó, nascido de Lia. Lia foi a esposa pela qual Jacó foi enganado por seu sogro e com quem se casou antes da prometida Raquel (Gênesis 29:16-30). Todos os descendentes de Judá são chamados de judeus (Mateus 1:2-16).

Portanto, enquanto o termo "hebreu" abrange uma ampla gama de descendentes de Abraão, incluindo os ismaelitas, o termo "israelita" é mais específico, referindo-se exclusivamente aos descendentes de Jacó, que também é conhecido como Israel. Essa distinção é fundamental para entender a identidade e a herança dos diferentes grupos mencionados nas Escrituras.

3  e lhe disse: Sai da tua terra e da tua parentela e vem para a terra que eu te mostrarei.

A história dos hebreus começa aqui. Abraão é considerado o Pai da fé, e não à toa, ele é uma figura fundamental nas três maiores religiões monoteístas, ou seja, que acreditam em apenas um Deus: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

No cristianismo, Abraão é especialmente significativo como um modelo de fé e obediência a Deus. O Novo Testamento frequentemente refere-se a Abraão para ilustrar a justificação pela fé. Jesus Cristo, em seus ensinamentos e genealogia, é descrito como descendente de Abraão (Mateus 1:1-16). Além disso, o apóstolo Paulo destaca Abraão como um exemplo de justificação pela fé, argumentando que a fé de Abraão foi creditada como justiça antes da Lei de Moisés (Romanos 4:3-16; Gálatas 3:6-9). A promessa feita a Abraão, de que todas as nações seriam abençoadas através de sua descendência, é vista no cristianismo como cumprida em Jesus Cristo, que é o Salvador prometido para todas as nações (Gálatas 3:16).

Assim, Abraão não é apenas um patriarca do judaísmo e do islamismo, mas também uma figura central no cristianismo, cujo relacionamento com Deus e exemplo de fé são fundamentais para a compreensão da justificação e da promessa redentora que se cumpre em Cristo.

4  Então, saiu da terra dos caldeus e foi habitar em Harã. E dali, com a morte de seu pai, Deus o trouxe para esta terra em que vós agora habitais.

Nada aqui é novidade; Estêvão está narrando tudo desde o princípio, considerando o início de tudo como Abraão, o pai da fé (Hebreus 11:8). Toda a trajetória de Abraão, suas façanhas e maiores dificuldades estão registradas em Gênesis, logo após a narrativa da Torre de Babel (Gênesis 11:1-9). Ou seja, praticamente toda a Escritura narra os acontecimentos dos hebreus.

A terra que agora habitais se refere, atualmente, a regiões geográficas de Israel, Palestina e adjacências. A Faixa de Gaza, que vemos frequentemente nos noticiários em guerra, também faz parte, geograficamente, dessa terra prometida, antigamente chamada Canaã (Gênesis 12:5-7).

5  Nela, não lhe deu herança, nem sequer o espaço de um pé; mas prometeu dar-lhe a posse dela e, depois dele, à sua descendência, não tendo ele filho.

Nela, ou seja, já morando em Canaã, Abraão não recebeu nada, nem mesmo um espaço para os seus pés. No entanto, Deus prometeu dar essa terra à sua descendência, mesmo antes de Abraão ter filhos. Isaque, o filho da promessa, ainda haveria de ser prometido e posteriormente nascer (Gênesis 12:7; Gênesis 13:15).

6  E falou Deus que a sua descendência seria peregrina em terra estrangeira, onde seriam escravizados e maltratados por quatrocentos anos;

Deus já havia profetizado o que aconteceria com a descendência de Abraão. Deus está sempre um passo, ou melhor, um infinito à frente de nossas escolhas. Ele já conhece o desfecho de tudo; Ele é Soberano, está acima de tudo, até mesmo de nossas escolhas e das consequências delas (Isaías 46:10).

Deus já havia profetizado que a descendência de Abraão seria escrava por 400 anos (Gênesis 15:13). Isso se cumpriu quando os israelitas foram escravizados pelos egípcios. No entanto, Deus também prometeu que, após esse período, os seus descendentes seriam libertos e abençoados abundantemente (Êxodo 3:8; Êxodo 3:17).

7  eu, disse Deus, julgarei a nação da qual forem escravos; e, depois disto, sairão daí e me servirão neste lugar.

É fato que Deus está sempre à frente de tudo; Ele é Soberano. No entanto, isso não exime a responsabilidade de nossas escolhas e atitudes (Gálatas 6:7). Por isso, Deus julgou a nação que escravizou os israelitas. O julgamento não é uma promessa futura, mas algo que já ocorreu (Êxodo 12:12). Após o julgamento, os israelitas saíram do Egito e se afastaram daquela nação. Eles passaram a servir a Deus na terra prometida, chamada Canaã, que hoje geograficamente ocupa as regiões de Israel, Palestina e a Faixa de Gaza (Êxodo 3:8; Êxodo 3:17).

8  Então, lhe deu a aliança da circuncisão; assim, nasceu Isaque, e Abraão o circuncidou ao oitavo dia; de Isaque procedeu Jacó, e deste, os doze patriarcas.

Deus fez um pacto com Abraão, estabelecendo que todos os seus descendentes deveriam ser circuncidados para participar dessa aliança (Gênesis 17:10-14). Isso incluía todos os filhos, escravos e estrangeiros que quisessem se unir ao pacto com Deus. Quem não fosse circuncidado seria excluído do povo e estaria quebrando a aliança (Gênesis 17:14).

Isaque já nasceu dentro dessa aliança e foi circuncidado no oitavo dia, conforme a tradição (Gênesis 21:4). Para as meninas, não havia um equivalente à circuncisão masculina, mas havia cerimônias de nascimento. No oitavo dia, as meninas eram apresentadas e recebiam um nome hebraico (Lucas 2:21).

Para uma estrangeira se unir ao povo de Israel, ela deveria ser supervisionada e participar de todos os ritos religiosos. Por isso, muitas vezes, mulheres de outras religiões eram discriminadas, como a mulher samaritana, que enfrentou resistência devido às diferenças doutrinárias e práticas (João 4:9). Os samaritanos adoravam o mesmo Deus, mas tinham práticas e uma versão do Pentateuco diferentes dos judeus, sendo também descendentes de Abraão (2 Reis 17:24).

Na Igreja Primitiva, muitos judeus convertidos ao cristianismo consideravam radical a aceitação de novos cristãos que não eram circuncidados. Eles viam a circuncisão como uma necessidade para a plena aceitação na comunidade cristã, seguindo a tradição judaica (Atos 15:1). Essa exigência gerou conflitos, pois essa sim era uma alteração radical dos princípios do evangelho (Gálatas 5:2-3).

“Circuncidai-vos para o SENHOR, circuncidai o vosso coração, ó homens de Judá e moradores de Jerusalém, para que o meu furor não saia como fogo e arda, e não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras.” (Jeremias 4:4 RA)

 “O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o SENHOR, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas.” (Deuteronômio 30:6 RA)

Os judeus não podiam negar que havia referências suficientes para mostrar que a circuncisão não tornava alguém automaticamente agradável a Deus. A verdadeira conversão e a santidade exigiam um comprometimento mais profundo e definitivo. Era necessário que a pessoa se convertesse genuinamente a Deus para ser considerada santa, escolhida e reservada para Ele (Deuteronômio 10:16; Jeremias 4:4; Ezequiel 36:26-27).

O Novo Testamento também reforça essa ideia, afirmando que o valor da verdadeira conversão não está na circuncisão ou em qualquer rito externo, mas na transformação interior e no relacionamento genuíno com Deus (Romanos 2:28-29; Gálatas 5:6).

“9 ¶ Vem, pois, esta bem-aventurança exclusivamente sobre os circuncisos ou também sobre os incircuncisos? Visto que dizemos: a fé foi imputada a Abraão para justiça. 10  Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou ainda incircunciso? Não no regime da circuncisão, e sim quando incircunciso.” (Romanos 4:9-10 RA)

“11  Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, 12  tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.” (Colossenses 2:11-12 RA)

9  Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele

Veja o que a inveja é capaz de fazer. Podemos até achar que os irmãos de José tinham ciúmes de suas posses, mas, segundo Estêvão, o problema era a inveja de quem José era, não do que ele possuía, mas de sua postura e posição (Atos 7:9).

É interessante notar que o erro que os patriarcas cometeram não os afastou da promessa de Deus. Deus é misericordioso e, após a reconciliação de José com seus 11 irmãos, as tribos de Israel foram formadas por todos eles, e todos são importantes. José pode ter sido o mais notável entre eles, mas Jesus veio da tribo de Judá, outro dos irmãos de José (Mateus 1:2-16; Hebreus 7:14).

10 e livrou-o de todas as suas aflições, concedendo-lhe também graça e sabedoria perante Faraó, rei do Egito, que o constituiu governador daquela nação e de toda a casa real.

Estêvão narra em um resumo bem curto o que aconteceu com José após ser vendido como escravo. Ele menciona que Deus livrou José de todas as suas aflições (Atos 7:10). No entanto, é importante notar que José enfrentou várias dificuldades: foi vendido como escravo, serviu na casa de Potifar, foi acusado injustamente de tentativa de estupro, e foi preso (Gênesis 39:1-20). Após isso, ele teve que esperar dois anos após interpretar corretamente os sonhos do copeiro e do padeiro (Gênesis 40:1-23).

Então, como pode Estêvão afirmar que Deus o livrou de todas as aflições? Sim, José enfrentou aflições, mas Deus não o manteve nelas indefinidamente. Em vez disso, Deus o livrou de cada uma delas ao longo do tempo. Mesmo na prisão, José se manteve determinado e não desanimado. Graças à sabedoria que Deus lhe deu, ele conseguiu servir bem e ser elogiado, e eventualmente foi promovido para tomar conta da prisão (Gênesis 39:21-23).

11  Sobreveio, porém, fome em todo o Egito; e, em Canaã, houve grande tribulação, e nossos pais não achavam mantimentos.

Tudo tem um propósito. A fome que assolou o Egito não foi surpresa para Deus. Por causa dessa fome, todos os pais, ou seja, os patriarcas e os filhos de Israel, passaram a morar no Egito, onde mais tarde seriam escravizados (Gênesis 41:30-31; Gênesis 46:1-3). Deus usou essa situação para cumprir Seu plano e preparar o cenário para os eventos futuros, incluindo a preservação da linhagem de Israel e a sua eventual libertação (Gênesis 50:20).

12  Mas, tendo ouvido Jacó que no Egito havia trigo, enviou, pela primeira vez, os nossos pais.

Jacó não saiu de sua atual morada imediatamente. Em um primeiro momento, ele enviou seus filhos para buscar mantimentos para toda a sua família e também para seus animais, devido à fome que assolava a região (Gênesis 42:1-3). Foi somente mais tarde, após os filhos relatarem a situação ao pai, que ele considerou a possibilidade de se mudar para o Egito para se reunir com José e garantir a sobrevivência de sua família (Gênesis 46:1-4).

13  Na segunda vez, José se fez reconhecer por seus irmãos, e se tornou conhecida de Faraó a família de José.

Houve toda aquela história na primeira vez em que os irmãos foram ao Egito, quando José os reconheceu e os provou para verificar se haviam se arrependido do que fizeram (Gênesis 42:7-17). Somente na segunda vez que eles foram ao Egito, José revelou a eles quem ele realmente era (Gênesis 45:1-3).

14  Então, José mandou chamar a Jacó, seu pai, e toda a sua parentela, isto é, setenta e cinco pessoas.

Até aquele momento, o número total de israelitas era de 75 pessoas (Gênesis 46:27; Atos 7:14). É importante notar que a quantidade total de hebreus era diferente, pois "hebreus" refere-se a todos os descendentes de Abraão, enquanto "israelitas" refere-se especificamente aos descendentes de Jacó, que também é conhecido como Israel. A história contada a partir desse ponto não é mais sobre os hebreus em geral, mas sobre a nação de Israel em particular.

15  Jacó desceu ao Egito, e ali morreu ele e também nossos pais; 16  e foram transportados para Siquém e postos no sepulcro que Abraão ali comprara a dinheiro aos filhos de Hamor.

Apesar de todos os patriarcas terem morrido no Egito, seus ossos foram posteriormente transportados e enterrados em Siquém, um território que pertencia a Canaã, a terra prometida (Josué 24:32). Hoje, essa região geograficamente corresponde a partes de Israel, Palestina e a Faixa de Gaza.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

ATOS DOS APÓSTOLOS (6:8-15)

Estêvão: Um Homem Cheio de Graça e Poder

8 ¶ Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo.

Estevão era cheio da graça de Deus, ou seja, ele sabia que o que reinava sobre ele não era a lei, mas sim a misericórdia de Deus, a bondade e o sacrifício de Jesus na cruz, que o motivava e o mantinha cheio da graça de Deus (Atos 6:8). Era o Espírito Santo que o mantinha cheio de poder, permitindo-lhe realizar grandes prodígios e sinais, duas coisas distintas, assim como graça e poder são dois adjetivos diferentes. Prodígios e sinais eram também duas ações diferentes.

Apesar de parecerem iguais, sinais e prodígios são distintos entre si. Podemos comparar sinais com o que aconteceu com Moisés antes do Mar Vermelho se abrir. Os israelitas tinham os “sinais” de que Deus estava com eles, indo à frente deles através de uma coluna de fumaça; à noite, essa mesma coluna de fumaça acendia e os iluminava (Êxodo 13:21-22). O prodígio aconteceu nessa ocasião quando Deus, através de Moisés, abriu o Mar Vermelho (Êxodo 14:21-22). Prodígio é tudo aquilo que desafia as leis da física e possui conotação espiritual.

No caso de Estevão, sinais o acompanhavam através de sua pregação e de seus testemunhos. Esses eram os sinais que ele dava a todos de que possuía o Espírito Santo e testemunhava com autoridade a ressurreição do Messias. Os prodígios estavam relacionados com os milagres que ele realizava, certamente os mesmos que os apóstolos estavam fazendo, como curar coxos, leprosos, cegos e todo tipo de milagre (Atos 6:8).

9  Levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia, e discutiam com Estêvão;

Sinagogas eram casas de oração, lugares onde se liam as escrituras e se orava. Adultos e crianças eram espectadores daqueles que os ensinavam sobre os livros antigos. Esse tipo de culto é adotado até hoje por nós, cristãos, onde nos reunimos em um templo para meditar nas escrituras sagradas, cultuar a Deus e orar.

Em Roma, existiam judeus que nasceram livres e judeus que, uma vez escravizados pelos romanos por um determinado líder, foram libertos. Esses judeus “Libertos” foram separados por essa definição e construíram, por conta própria, suas sinagogas. Outros grupos também se reuniram todos para discutir com Estevão sobre o que ele estava pregando. Eram pessoas de Cirene, de Alexandria, da Cilícia e da Ásia. Não todos os asiáticos, mas especificamente aqueles que hoje conhecemos como turcos, ou seja, da Turquia (Atos 6:9).

10  e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava.

Percebam quantos homens de vários lugares diferentes e nenhum deles foi capaz de vencer a sabedoria que Estevão pregava. Detalhe: se fosse a sabedoria dele, certamente seria contrariada por algumas dessas pessoas, mas era a sabedoria do Espírito Santo, e essa é invencível (Atos 6:10).

11  Então, subornaram homens que dissessem: Temos ouvido este homem proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus.

Como não venceram no argumento, apelaram para a mentira, subornando homens para mentir. Veja como eram cegos: não acreditavam que Jesus era o Messias e consideravam o que Estevão falava como mentira e blasfêmia. Contudo, usaram a própria mentira para, no final, eliminar aquele que pregava sobre Jesus. Usaram a mentira para combater a "mentira", hipócritas. Tudo isso porque não venceram no argumento, devido ao ego e à vaidade. Se não fosse isso, simplesmente não aceitariam e continuariam com suas vidas. Mas foram contrariados e desmascarados perante o povo. Sua vaidade não permitia sofrer tal ofensa, e fariam qualquer coisa para eliminar aquele que os contrariasse (Atos 6:11-14).

12  Sublevaram o povo, os anciãos e os escribas e, investindo, o arrebataram, levando-o ao Sinédrio.

Através desse suborno, eles incitaram o povo, comoveram e agitaram a multidão. Anciãos, que eram pessoas mais velhas e membros do sinédrio selecionados entre os mais velhos, foram envolvidos. Na igreja, as lideranças também eram escolhidas entre os mais velhos.

Os escribas, responsáveis por copiar e interpretar a lei de Deus, foram os mais presentes na perseguição aos cristãos, à igreja e até mesmo na morte de Cristo. Eles foram diretamente afrontados por Jesus por terem criado leis como a conhecida “Lei dos Anciãos”, que continha muitas regras que causavam fardos pesados ao povo. Regras como lavar copos, lavar as mãos antes de comer e até a desobrigação de honrar pai e mãe foram criações deles. Eles diziam que se alguma oferta fosse dedicada a Deus, não precisariam usar essa oferta para ajudar seus pais, algo totalmente contrário ao que Jesus ensinava (Mateus 15:1-9; Marcos 7:1-13).

Todo o povo foi ao sinédrio, o mais alto tribunal dos judeus. É como se hoje algum protestante fosse levado até Roma para ser julgado pelo Papa por condenar a idolatria a santos e pessoas que já morreram (Atos 6:12).

13  Apresentaram testemunhas falsas, que depuseram: Este homem não cessa de falar contra o lugar santo e contra a lei;

Usaram da mentira para combater o que para eles era alguém que mentia. Essa hipocrisia é facilmente observada nos dias atuais, especialmente na política, onde vemos pessoas acusando outras de fazerem aquilo que elas próprias praticam. Apesar dessas testemunhas falsas acusarem Estevão de ser contra tudo isso, ele, movido pelo Espírito Santo, fez um discurso de defesa brilhante, esclarecendo tudo. No entanto, mesmo sendo movido pelo Espírito Santo, sua pregação não foi capaz de salvar ninguém ali, e, de forma unânime, tiraram a vida dele (Atos 6:11-14; Atos 7:51-60).

14  porque o temos ouvido dizer que esse Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos deu.

E isso não é uma mentira; é verdade quando dizem que Jesus mudará os costumes. O que não enxergavam é que até mesmo os seus costumes já não eram mais os mesmos que Moisés ensinou inicialmente. Eles já haviam criado muitas outras regras e leis que nem mesmo eles conseguiam cumprir e, pior, cobravam do povo o cumprimento dessas regras (Mateus 23:1-4).

A tal lei que eles se negavam a abandonar torna cada um de nós malditos perante Deus, pois não conseguimos cumpri-la (Gálatas 3:10). Mas Jesus a cumpriu, Jesus venceu a lei, e hoje, a antiga lei ou a antiga aliança não faz mais parte do plano de Deus. A nova aliança estabelecida agora chama-se graça (Romanos 6:14). Se alguém que não é judeu quiser ainda seguir a antiga aliança, deve fazê-lo de forma correta e de forma que os judeus o aceitem. Se for homem, o primeiro passo é se circuncidar e depois obedecer às outras mais de 600 leis (Gálatas 5:3).

Devemos entender que não somos judeus; a aliança antiga não foi feita para estrangeiros, mas para o povo de Deus, que Ele no princípio escolheu para ser Seu povo. Mas, graças ao tropeço que esse povo cometeu, Deus permitiu que Sua misericórdia fosse derramada sobre o restante do mundo (Romanos 11:11-12).

Todos que querem participar da nova aliança e ser parte do povo de Deus não precisam se circuncidar e praticar todas as antigas práticas já abolidas da lei. Basta apenas, com fé, confessar que Jesus é seu Senhor, arrepender-se de seus pecados, e o Espírito de Jesus batizará e o tomará para Ele. Nada e ninguém poderá arrebatar essa pessoa das mãos do Senhor (Romanos 10:9-10; João 10:28-29).

15  Todos os que estavam assentados no Sinédrio, fitando os olhos em Estêvão, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo.” (Atos 6:1-15 RA)

Todos aqueles que estavam assentados no Sinédrio eram homens com autoridade espiritual e judicial de seu povo. O fato de estarem fitando os olhos em Estêvão destaca que estavam prestando atenção em toda e qualquer palavra que ele dizia, procurando alguma coisa para que pudessem condená-lo. Mas ao prestarem atenção em Estêvão, notaram algo diferente em seu rosto, e o descreveram como se fosse o rosto de um anjo (Atos 6:15).

Essa forma de expressão pode ser para destacar a autoridade, calma, paz e domínio que Estêvão tinha em suas palavras, testificando que ele estava cheio do Espírito Santo e que suas palavras vinham de Deus (Atos 6:5, 10). Assim como aconteceu com Moisés, cujo rosto brilhava quando Deus falava com ele (Êxodo 34:29-35), o rosto de Estêvão poderia da mesma forma transparecer esse brilho, testificando que o seu testemunho vinha da parte de Deus e que ele estava movido e cheio do Espírito Santo (Atos 7:55).

Você pode estudar aqui um pouco mais sobre anjos, um resumo geral sobre esses seres.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

OS ANJOS DE DEUS

Introdução

Os anjos são seres celestiais criados por Deus, mencionados diversas vezes nas Escrituras. Eles desempenham diferentes funções e têm aparências variadas. Este estudo explora a origem, os tipos, as funções e a queda de alguns desses seres poderosos.

Origens e Criação dos Anjos

Criação dos Anjos

Os anjos foram criados por Deus, através de Jesus Cristo, antes da criação do mundo e da humanidade.

Referências Bíblicas:

  • Colossenses 1:16-17: "pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste."
  • Jó 38:4-7: "Onde é que você estava quando criei o mundo? Se você é tão inteligente, explique isso. Você sabe quem resolveu qual seria o tamanho do mundo e quem foi que fez as medições? Em cima de que estão firmadas as colunas que sustentam a terra? Quem foi que assentou a pedra principal do alicerce do mundo? Na manhã da criação, as estrelas cantavam em coro, e os servidores celestiais soltavam gritos de alegria."

Tipos de Anjos

Serafins

Os serafins são anjos que servem diretamente na presença de Deus, louvando e adorando continuamente.

Referência Bíblica:

  • Isaías 6:1-3: "No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória."

Querubins

Os querubins são guardiões e protetores das coisas sagradas.

Referência Bíblica:

  • Gênesis 3:24: "E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida."

Arcanjos

Os arcanjos são líderes entre os anjos e têm funções especiais, como a de guerreiros celestiais.

Referências Bíblicas:

  • Judas 1:8-9: "Ora, estes, da mesma sorte, quais sonhadores alucinados, não só contaminam a carne, como também rejeitam governo e difamam autoridades superiores. Contudo, o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a proferir juízo infamatório contra ele; pelo contrário, disse: O Senhor te repreenda!"
  • Daniel 10:9-13: "Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo-a, caí sem sentidos, rosto em terra. Eis que certa mão me tocou, sacudiu-me e me pôs sobre os meus joelhos e as palmas das minhas mãos. Ele me disse: Daniel, homem muito amado, está atento às palavras que te vou dizer; levanta-te sobre os pés, porque eis que te sou enviado. Ao falar ele comigo esta palavra, eu me pus em pé, tremendo. Então, me disse: Não temas, Daniel, porque, desde o primeiro dia em que aplicaste o coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras; e, por causa das tuas palavras, é que eu vim. Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; porém Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu obtive vitória sobre os reis da Pérsia."

Anjos do Senhor

Os anjos do Senhor são mensageiros especiais que cumprem missões específicas, muitas vezes trazendo mensagens de Deus aos humanos.

Referências Bíblicas:

  • Gênesis 16:7-11: "Tendo-a achado o Anjo do SENHOR junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte no caminho de Sur, disse-lhe: Agar, serva de Sarai, donde vens e para onde vais? Ela respondeu: Fujo da presença de Sarai, minha senhora. Então, lhe disse o Anjo do SENHOR: Volta para a tua senhora e humilha-te sob suas mãos. Disse-lhe mais o Anjo do SENHOR: Multiplicarei sobremodo a tua descendência, de maneira que, por numerosa, não será contada. Disse-lhe ainda o Anjo do SENHOR: Concebeste e darás à luz um filho, a quem chamarás Ismael, porque o SENHOR te acudiu na tua aflição."
  • Lucas 2:9-14: "E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem."

Exércitos Celestiais

Os exércitos celestiais são legiões de anjos que podem ser convocados para batalhas espirituais.

Referência Bíblica:

  • Mateus 26:53: "Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?"

Funções dos Anjos

Função Geral

Todos os anjos são espíritos ministradores enviados para servir aqueles que herdarão a salvação.

Referência Bíblica:

  • Hebreus 1:13-14: "Ora, a qual dos anjos jamais disse: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés? Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?"

Funções Especiais

Cuidar das Crianças

Os anjos têm um papel especial em proteger as crianças.

Referência Bíblica:

  • Mateus 18:10: "Vede, não desprezeis a qualquer destes pequeninos; porque eu vos afirmo que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de meu Pai celeste."

Proteger os Temerosos a Deus

Os anjos protegem aqueles que temem a Deus.

Referências Bíblicas:

  • Salmos 34:7: "O Anjo do SENHOR fica em volta daqueles que o temem e os protege do perigo."
  • Salmos 91:11: "Deus mandará que os anjos dele cuidem de você para protegê-lo aonde quer que você for."

A Queda de um Anjo Poderoso

Lúcifer

Um dos anjos mais poderosos, conhecido como Lúcifer, caiu por causa de sua arrogância e desejo de se igualar a Deus.

Referências Bíblicas:

  • Isaías 14:12-15: "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo."
  • Ezequiel 28:12-18: "Filho do homem, levanta uma lamentação contra o rei de Tiro e dize-lhe: Assim diz o SENHOR Deus: Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se te fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado, foram eles preparados. Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem. Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio, profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu, e te reduzi a cinzas sobre a terra, aos olhos de todos os que te contemplam."

Um Terço dos Anjos

Lúcifer, ao cair, enganou um terço dos anjos, que foram lançados com ele à terra.

Referência Bíblica:

  • Apocalipse 12:4: "A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse."

Anjos a Nosso Favor

Apesar da queda de muitos anjos, aqueles que permanecem fiéis a Deus são mais numerosos e estão a nosso favor.

Referência Bíblica:

  • 2 Reis 6:16: "Eliseu disse: —Não tenha medo, pois aqueles que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles."

Devoção e Adoração

Os anjos são seres poderosos e santos, mas a adoração deve ser dirigida somente a Deus. Mesmo João, ao tentar adorar um anjo, foi instruído a adorar apenas a Deus.

Referência Bíblica:

  • Apocalipse 22:8-9: "Eu, João, sou quem ouviu e viu estas coisas. E, quando as ouvi e vi, prostrei-me ante os pés do anjo que me mostrou essas coisas, para adorá-lo. Então, ele me disse: Vê, não faças isso; eu sou conservo teu, dos teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus."

Conclusão

Os anjos de Deus são seres criados para servir e proteger os fiéis, desempenhando diferentes funções e tendo diversas aparências. Embora poderosos, eles não devem ser adorados, pois toda adoração deve ser dirigida exclusivamente a Deus. A queda de Lúcifer e de um terço dos anjos serve como um lembrete das consequências do orgulho e da desobediência a Deus. Os anjos fiéis, entretanto, continuam a trabalhar em favor daqueles que herdarão a salvação, demonstrando a infinita sabedoria e amor de Deus para com a humanidade.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

ATOS DOS APÓSTOLOS (6:1-7)

A Estrutura Inicial da Igreja: Diáconos, Apóstolos e a Distribuição Diária

“1 ¶ Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária.

Helenistas são judeus que nasceram em terras estrangeiras e que falavam grego. Esses estrangeiros estavam se queixando de que suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de dinheiro (Atos 6:1). Começou aí o primeiro problema do socialismo utópico, “a impressão de que estavam recebendo uma quantia inferior ao outro” (Atos 6:1).

2  Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas.

Os doze apóstolos, ou seja, todos responsáveis e líderes, não tinham entre eles alguém com autoridade máxima a ponto de tomar decisões contrárias às dos outros. Em uma só voz, todos os doze sabiam que o mais importante era a pregação do evangelho, e não a distribuição de dinheiro ao povo (Atos 6:2-4). Podem ter certeza de que alguns, naquela época, sabendo que eles distribuíam dinheiro diariamente, entravam para o grupo mesmo não sendo crentes em Cristo Jesus, interessados somente no conforto imediato, mas não duradouro, que o dinheiro poderia proporcionar.

3  Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço;

Podemos pensar: “Ah, mas é só para distribuir dinheiro ao povo; não precisa ser religioso, basta saber lidar com finanças e está tudo ok.” Nada disso! Todos os eleitos para diáconos deveriam ser cheios do Espírito Santo, ou seja, todos deveriam ser reconhecidamente dominados pelo Espírito Santo. Todos os diáconos deveriam ser conhecidos pelo povo como alguém temente a Deus (Atos 6:3).

4  e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra.

Se havia algo que os apóstolos faziam mais do que anunciar a palavra de Deus, era orar. Vimos até aqui grandes discursos de quando eles saíam e anunciavam a palavra de Deus na rua ou no templo, e em um trecho curto vimos que eles se reuniam e oravam. Pode-se ter certeza de que esse trecho curto não significa que passavam curtos períodos orando; pelo contrário, eles viviam mais em oração e em grupo do que fora anunciando o evangelho. Quando saíam e pregavam aos de fora, novidades aconteciam, e por isso muitas mais coisas eram registradas pelo autor do livro (Atos 1:14; Atos 2:42).

Quanto à atividade de dividir o dinheiro, os apóstolos não necessariamente disseram que essa atividade não tinha valor na igreja. Pelo contrário, era uma atividade importante, sim, a distribuição sábia de dinheiro aos necessitados. Mas o que eles deixaram claro é que ELES, as testemunhas do Deus vivo, os portadores da boa nova, não poderiam deixar de anunciar o evangelho e de se consagrarem à oração para lidar com finanças (Atos 6:2-4). Em outras palavras, nem todos são chamados por Deus para ser pregadores, pastores ou mestres, mas todos com o Espírito Santo têm a obrigação de servir a Deus. Seja falando de Jesus na rua, em sua casa, seja servindo como tesoureiro na igreja, seja limpando a igreja ou encorajando os outros, TODOS que têm o Espírito Santo dentro de si se sentirão obrigados a fazer algo para Deus. Ele não nos deixará “confortáveis” enquanto não servirmos Aquele que nos deu vida em abundância (Efésios 4:11-12; 1 Coríntios 12:4-11). Somos chamados a ser servos de Deus, comprometidos a viver para Ele e realizar Suas obras (Romanos 6:22; 1 Pedro 2:16).

5  O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia.

A palavra "prosélito" no contexto do Novo Testamento refere-se a uma pessoa gentia que se tornava judia. Antes da graça, alguém não israelita poderia pertencer ao povo de Deus se passasse pelo rito da circuncisão e obedecesse à lei judaica. Contudo, o problema com os novos convertidos ao cristianismo era que eles não estavam sendo obrigados a seguir essas práticas judaicas, o que causava repulsa e divisão entre os israelitas e aqueles que não compreendiam a verdadeira graça, resultando em conflito e resistência ao novo ensino pregado pelos apóstolos (Atos 15:1-5; Gálatas 2:3-5).

No início, a estrutura da igreja era composta por apóstolos e diáconos, esses ajudavam nos trabalhos de administração da igreja e cuidavam dos pobres, das viúvas e dos necessitados em geral. Além disso, os diáconos também pregavam o evangelho e ensinavam a doutrina cristã (Atos 6:1-4). A função do diácono não se restringia apenas à administração e ao cuidado dos necessitados, mas também incluía o ensino da palavra de Deus e a pregação do evangelho ao mundo. "Pouca coisa, não é?" (Atos 6:5-6; 1 Timóteo 3:8-13; Atos 11:29).

Por exemplo, Filipe, um dos sete diáconos escolhidos (Atos 6:5-6), é descrito como um evangelista em Atos 8:5-7, onde ele prega o evangelho em Samaria, realiza milagres, como a cura de paralíticos e coxos, e expulsa espíritos imundos. Isso ilustra como os diáconos estavam envolvidos na expansão do evangelho e no cuidado pastoral da comunidade.

Além da administração e do cuidado dos necessitados, os diáconos também desempenhavam um papel importante no serviço prático da igreja. Em Romanos 16:1-2, Febe, uma diaconisa, é mencionada como uma serva da igreja em Cencreia, que ajudava a receber irmãos e irmãs e apoiava a comunidade. Esse tipo de serviço prático era fundamental para a vida da igreja e permitia que os apóstolos se dedicassem à oração e ao ministério da palavra (Atos 6:4).

A função dos diáconos era abrangente, envolvendo tanto a administração dos recursos da igreja quanto a responsabilidade espiritual e pastoral. Em 1 Pedro 4:10, é destacado que cada cristão deve administrar os dons recebidos como "bons despenseiros da multiforme graça de Deus," refletindo a importância do serviço e da liderança na vida da igreja.

Filipenses 1:1 menciona os diáconos ao lado dos bispos, indicando que eles tinham um papel significativo na estrutura e no funcionamento da igreja primitiva. E em Tito 1:7-9, as qualificações para os bispos, que incluem características de liderança servidora e gestão responsável, mostram a importância da liderança dentro da comunidade cristã.

Portanto, o trabalho dos diáconos na igreja primitiva era complexo e multifacetado, incluindo administração, pregação, ensino e serviço prático, essencial para o funcionamento eficaz e fiel da comunidade cristã.

6  Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos.

A imposição de mãos, como ainda é praticada hoje, era um ritual primitivo na igreja cristã. Esse tipo de ritual era usado em diversas situações, como na escolha de líderes nas igrejas (Atos 6:6), na cura de pessoas (Marcos 16:18) e na transmissão do Espírito Santo (Atos 8:17). No entanto, isso não era uma regra fixa e não funcionava apenas quando as mãos eram impostas.

Em várias ocasiões, vemos o Espírito Santo tomar as pessoas apenas através da pregação, sem a imposição de mãos (Atos 10:44). Pessoas também foram curadas e até ressuscitadas apenas pela voz (João 11:43-44) ou à distância, sem a imposição de mãos (Mateus 8:13).

Esse ritual de imposição de mãos estava sempre acompanhado de oração (Atos 13:3). É necessário tomar cuidado com esse tipo de manifestação para não dar a impressão de que algo está sendo manifestado somente porque alguém estendeu as mãos. É importante evitar a vaidade que pode surgir com esse tipo de ritual.

7  Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé.

A pregação de Pedro e dos apóstolos era realmente convincente, trazendo novos cristãos, alunos, aprendizes e discípulos diariamente, inclusive entre os sacerdotes (Atos 2:41, Atos 6:7). É importante lembrar que, embora alguns sacerdotes tenham entregado Jesus à cruz por inveja, nem todos os religiosos daquela época condenaram Cristo. Nicodemos, por exemplo, não seguiu a Cristo abertamente, mas mostrou humildade e respeito por Ele (João 3:1-2; João 19:39). Muitos outros também reconheceram Jesus como o Messias.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

ATOS DOS APÓSTOLOS (5:40-42)

Proibidos de Falar, Mas Não de Crer: A Resistência Apostólica

40  Chamando os apóstolos, açoitaram-nos e, ordenando-lhes que não falassem em o nome de Jesus, os soltaram.

O açoitamento era um castigo físico severo e doloroso (Mateus 10:17), e através desse castigo, tentaram intimidar os apóstolos e os proibiram de continuar a propagar o nome de Jesus Cristo. Seguindo o conselho de Gamaliel (Atos 5:34-40), eles os soltaram, não aplicando uma punição mais severa, como a pena de morte, que foi imposta a muitos outros cristãos (Atos 7:59-60).

Este versículo destaca a resistência que os primeiros cristãos enfrentaram ao tentar propagar a mensagem de Jesus. Os apóstolos estavam dispostos a sofrer e enfrentar punições severas por causa de sua fé e missão. A ordem das autoridades para que não falassem em nome de Jesus é uma tentativa clara de suprimir a verdade do evangelho.

Porém, como podemos ler nos versículos subsequentes, os apóstolos continuaram a pregar, mostrando a profundidade de sua convicção e compromisso com a missão que Jesus lhes havia dado.

41  E eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome.

Os apóstolos ficaram felizes por terem sofrido em nome de Jesus. Isso reflete uma profunda convicção e fé, mostrando que eles entendiam o sofrimento como uma honra e uma confirmação de seu compromisso com Cristo. Eles estavam dispostos a enfrentar oposição e dor, considerando isso parte da sua missão.

O "Nome" refere-se a Jesus Cristo. O uso do termo "Nome" reflete a importância e a reverência que os apóstolos tinham por Jesus. Eles reconheciam o poder e a autoridade que havia no nome de Jesus e estavam prontos para enfrentar qualquer consequência por proclamar esse nome. (Mateus 5:10-12, 1 Pedro 4:13-16)

42  E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo.” (Atos 5:1-42 RA)

A punição que os apóstolos receberam não foi suficiente para fazê-los parar de pregar o evangelho. Eles continuavam com ousadia a pregar a verdade em locais públicos, como os templos, e em locais particulares, como as residências das pessoas (Atos 2:46; Atos 20:20), mostrando que o lugar não importa; o importante é alcançar cada vez mais pessoas. Apesar das ameaças e punições, eles permaneciam inabaláveis em sua tarefa de proclamar Jesus como o Messias (Romanos 1:16).

A perseverança dos apóstolos diante da oposição serve de inspiração para os cristãos de hoje. Este versículo nos lembra que seguir a Cristo pode trazer desafios e oposição, mas a fidelidade à mensagem do evangelho é de suprema importância.

ATOS DOS APÓSTOLOS (5:26-39)

O Confronto com o Sinédrio e a Coragem dos Apóstolos

26 ¶ Nisto, indo o capitão e os guardas, os trouxeram sem violência, porque temiam ser apedrejados pelo povo.

Já vimos aqui algumas referências de que o povo era simpático a essa nova igreja. O problema era a inveja desses líderes que instigavam o povo contra nosso Senhor Jesus. Se não houvesse oposição, se não houvesse quem de forma violenta trabalhasse contra o evangelho de Deus, certamente hoje já teríamos o mundo todo evangelizado (ou será que não?). O povo aceitava o que Pedro dizia; eles não apenas falavam, mas provavam através de sinais. Deus dava testemunho de que tudo o que diziam era verdade, mas temiam o que poderia acontecer com eles por causa dessas autoridades que não apoiavam esse novo ensino (Atos 5:12-14).

27  Trouxeram-nos, apresentando-os ao Sinédrio. E o sumo sacerdote interrogou-os, 28  dizendo: Expressamente vos ordenamos que não ensinásseis nesse nome; contudo, enchestes Jerusalém de vossa doutrina; e quereis lançar sobre nós o sangue desse homem.

Esse era o problema deles: o nome de Jesus. Eles não estavam pregando "Deus", não estavam falando do Deus que todos conheciam e que, de certa forma, equivocadamente ou não, temiam. O Deus de Isaque, Jacó, Abraão e Moisés era conhecido de todos; era o Deus deles. Mas o problema é que estavam pregando o nome de Jesus.

Todos aceitam, até mesmo os ateus, ouvir e até falar o nome de Deus: "Ah, meu Deus", "Graças a Deus", diz um ateu que encontrou o que procurava ou que está espantado com alguma coisa. "Deus te abençoe", diz a moça do supermercado. "Deus te abençoe", dizem nossos parentes. Mas experimente dizer para essas pessoas: "Jesus esteja com você..." (Atos 4:17-18).

 29  Então, Pedro e os demais apóstolos afirmaram: Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.

Então, eles estavam sendo disciplinados a obedecer às autoridades religiosas, mas um anjo claramente lhes deu ordens diferentes dessas que estavam recebendo (Atos 5:19-20).

Nem sempre nossas autoridades religiosas terão razão. Se isso não fosse verdade, as mesmas autoridades religiosas que pregam o mesmo Cristo concordariam em tudo, mas não é isso que vemos. Basta ouvir líderes religiosos de diferentes denominações, ou até mesmo da mesma denominação, para perceber que podem estar transmitindo ideias diferentes. "Ah, mas podemos interpretar de várias formas a palavra de Deus". Errado. A mensagem que o autor escreve tem um objetivo; foi escrita em uma cultura, em uma determinada época e direcionada a um grupo de pessoas, ou a uma só pessoa, ou a todas as pessoas. Ela tem um propósito, e não podemos criar alegorias sobre o texto para satisfazer nossas ideias.

Se duas pessoas pensam diferente sobre determinado verso, ou uma das duas está equivocada ou as duas estão, mas nunca as duas poderão ter razão. E como podemos nos blindar de pessoas persuasivas que podem nos influenciar negativamente? Lendo e estudando a Bíblia. Assim como os bereanos, podemos medir tudo o que ela diz para saber se está de acordo com a palavra de Deus ou não (Atos 17:11).

30  O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro.

Essa é uma acusação gravíssima, e eles não poupavam nem mesmo as mais altas autoridades religiosas, responsabilizando essas mesmas autoridades pela morte de Jesus (Atos 5:28-30).

 31  Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados.

Com sua destra, ou seja, com sua máxima autoridade e poder, com a mais alta honra, Deus o fez príncipe e Salvador. Outras versões traduzem que "Deus o colocou à sua destra", mas a maioria delas fala desta forma, dando ênfase a como Deus deu importância e honra ao exaltar Jesus a príncipe e salvador do mundo (Atos 5:31).

É importante observar aqui que, se ele foi exaltado, significa que estava em uma posição inferior anteriormente, mas isso não significa que havia algo ou alguém superior a ele antes, apenas que foi exaltado de um posto que ocupava anteriormente. Difícil pensar que Cristo era de certa forma inferior ao que é agora, certo? Tudo foi criado por ele, por meio dele e para ele. Como pode alguém ser exaltado ainda mais? Como pode alguém ter ainda mais poder e glória do que isso? Lembrem que Deus é soberano a tudo isso, e por mais que Jesus tenha sido e possa ainda ser mais "promovido", jamais terá poder igual ou superior a Deus.

Lembre-se, em outras palavras, Jesus foi o instrumento usado para criar tudo, e tudo foi criado para Ele:

"pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele" (Colossenses 1:16).

E vejam como não perderam tempo e pregaram novamente sobre o arrependimento para a remissão dos pecados. Fato: temos que nos arrepender para ter o perdão. Fato: é o próprio Deus quem concede isso, para que ninguém se glorie; a glória é toda DELE (Efésios 2:8-9).

32  Ora, nós somos testemunhas destes fatos, e bem assim o Espírito Santo, que Deus outorgou aos que lhe obedecem.

Eles são testemunhas, assim como o Espírito Santo, que é dado a quem obedece (Atos 5:32). Mas o Espírito Santo não é dado aos que creem? Sim, mas crer é um mandamento, e obedecendo a esse mandamento — crer em Jesus — é que recebemos o Espírito Santo de Deus.

Lembram? Crer, se arrepender e ser batizado: essa é a ordem. Você obedece a Deus crendo. Ao crer, você se arrepende de seus pecados. Arrependido, você é convertido e não anda na mesma direção que andava antes. Arrependido, você recebe o batismo, tarefa realizada pelo Santo Espírito de Deus, que é enviado ao seu coração (Atos 2:38).

33  Eles, porém, ouvindo, se enfureceram e queriam matá-los.

Falar para essas pessoas que Cristo foi exaltado e é maior que todos os patriarcas, profetas e até mesmo Moisés não era confortável para aqueles que pregavam a lei baseada nesses homens. Eles estavam cientes de que essa nova doutrina, se prosperasse, iria tornar obsoleta a deles (Hebreus 3:3-6).

34  Mas, levantando-se no Sinédrio um fariseu, chamado Gamaliel, mestre da lei, acatado por todo o povo, mandou retirar os homens, por um pouco, 35  e lhes disse: Israelitas, atentai bem no que ides fazer a estes homens.

Um mestre da lei venerado, respeitado por todo o povo, se levantou e aconselhou a todos para tomarem cuidado com o julgamento que fariam dos apóstolos (Atos 5:34). Gamaliel é frequentemente lembrado por sua sabedoria e moderação. Além desse episódio, ele é também citado por Paulo, que menciona Gamaliel como seu mestre em sua formação. Todo o conhecimento que Paulo tinha da lei se deve, em grande parte, ao ensino do mestre Gamaliel (Atos 22:3). Contudo, não há registro de que Gamaliel se tornou cristão. Pode até ter acontecido, mas não há fatos bíblicos que comprovem isso. Ele continuou a ser fariseu, e um de seus discípulos, o apóstolo Paulo, movido por sua religião, perseguia, prendia e levava os cristãos à morte (Atos 8:3; Atos 9:1-2). Entendermos isso será importante para a explanação posterior logo abaixo.

36  Porque, antes destes dias, se levantou Teudas, insinuando ser ele alguma coisa, ao qual se agregaram cerca de quatrocentos homens; mas ele foi morto, e todos quantos lhe prestavam obediência se dispersaram e deram em nada. 37  Depois desse, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e levou muitos consigo; também este pereceu, e todos quantos lhe obedeciam foram dispersos. 38  Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; 39  mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus. E concordaram com ele.

Então, Gamaliel procurou embasar seu argumento de cautela contra esses homens relembrando o que aconteceu alguns dias atrás com um certo Teudas, que se achava alguma coisa. Ele conseguiu agregar 400 homens à sua crença, mas quando foi morto, todos os que prestavam obediência se dispersaram e não deu em nada. Ele citou ainda outro homem, um certo Judas, e quando ele também morreu, todos os que o seguiam abandonaram a sua crença (Atos 5:36-37).

Então ele argumenta: “Dai de mão a estes homens” (Atos 5:38), ou seja, uma expressão usada para dizer que não se deve preocupar com esses homens, como se fosse um deboche, crente de que aconteceria com eles o mesmo que aconteceu com os outros dois citados acima. Porém, ele conclui que, se a obra que anunciam não vem de homens, mas de Deus, a intervenção deles não seria apenas contra ideias humanas, mas estariam lutando contra o próprio Deus (Atos 5:39).

Vejo muitos mestres hoje ensinando a sermos moderados e prudentes como Gamaliel. Isso é importante, mas não devemos passar por cima de conselhos e recomendações que fazem parte da doutrina do evangelho para adotar o que Gamaliel, um fariseu, disse.

Paulo e os apóstolos foram perseguidos e mortos por divulgarem o evangelho, por serem polêmicos, por denunciarem falsos ensinos e falsos mestres (2 Coríntios 11:13-15; Gálatas 1:6-9). Não devemos ignorar todo o sacrifício que esses homens fizeram e adotar equivocadamente o conselho de Gamaliel, deixando que falsos mestres e falsos ensinos sejam introduzidos nas igrejas com o argumento de que “poderemos estar lutando contra o próprio Deus”.

Sejamos sensatos. Gamaliel foi sábio, e esse conselho foi muito útil para poupar os homens que queriam lutar contra o que os apóstolos ensinavam, impedindo-os de lutar contra o próprio Deus. Contudo, esse conselho não serve para os crentes que sabem e conhecem as Escrituras e conseguem identificar heresias e doutrinas demoníacas ensinadas por falsos profetas, falsos mestres, falsos apóstolos (2 Pedro 2:1; 1 João 4:1). Essas heresias devem ser enfrentadas e combatidas. A igreja não pode permitir um outro evangelho diferente do que foi anunciado sob muito derramamento de sangue (Gálatas 1:8-9). Quem prega o conselho de Gamaliel dessa forma, de deixar tudo e qualquer um falar o que quiser sobre o evangelho (2 Timóteo 4:3-4), na verdade está querendo se blindar de ataques do verdadeiro evangelho sobre ele mesmo.

ATOS DOS APÓSTOLOS (5:17-25)

A Inveja dos Saduceus e a Prisão dos Apóstolos

17 ¶ Levantando-se, porém, o sumo sacerdote e todos os que estavam com ele, isto é, a seita dos saduceus, tomaram-se de inveja, 18  prenderam os apóstolos e os recolheram à prisão pública.

Seita significa um grupo menor se desligando de um grupo maior. Na época, o grupo predominante era o dos fariseus. Logo, os saduceus são considerados uma seita porque se desligaram desse grupo maior e, através de suas próprias doutrinas e convicções, criaram essa nova religião, antagônica às doutrinas do grupo maior. Destacam-se a doutrina de não acreditar na ressurreição (Mateus 22:23; Atos 23:8), em anjos, na imortalidade da alma e na predestinação de Deus, acreditando no livre-arbítrio.

Movidos pela inveja, esse grupo prendeu os apóstolos. Mas com que autoridade eles fizeram isso? Nada menos que o sumo sacerdote estava ali, tendo total influência sobre o povo e sendo responsável pelos cultos no templo. A inveja nunca foi tão mencionada na Bíblia como nessas circunstâncias envolvendo fariseus, saduceus e o Cristianismo (Atos 5:17-18).

Inveja pode ser resumida como um sentimento que faz alguém querer ter o que outra pessoa tem. Não necessariamente precisa ser algo material. Na Bíblia, os vários relatos em que aparece a inveja estão relacionados com o fato do invejoso querer ter a glória e o prestígio que o invejado tem, e não necessariamente o que ele possui. Por exemplo, José do Egito: os irmãos foram tomados de inveja, não por causa da roupa especial que José tinha, mas pelo carinho, atenção e honra que ele recebia (Gênesis 37:11). Não necessariamente queriam a roupa, mas a mesma honra que José tinha. Davi e Saul: a inveja de Saul por Davi não era pelo que ele materialmente tinha, mas pela honra que ele tinha ao declararem: "Davi matou dezenas de milhares e Saul apenas milhares" (1 Samuel 18:7). O desejo de ter intensamente o que o outro tem chama-se cobiça. Um exemplo claro desse pecado na Bíblia é o caso de Nabote e o rei Acabe. O rei queria o campo de Nabote para transformá-lo em um jardim, mas por motivos sentimentais, Nabote não vendeu o campo. O rei e sua rainha conspiraram até conseguir de forma trágica esse campo (1 Reis 21:1-16). O ciúme é outro pecado que faz alguém ficar inseguro quando perde a atenção ou consideração de alguém que gosta muito. Está mais relacionado à parte amorosa, mas não descarta acontecer com amigos ou pessoas que se considera muito.

No Novo Testamento, na circunstância da pregação do evangelho, os saduceus foram movidos pela inveja, não por algo material, até porque os apóstolos não tinham nada a mais do que eles já tinham. A inveja foi motivada por um certo ciúme, pois estavam perdendo a honra, a glória e a admiração do povo. O evangelho pregado por Pedro e os apóstolos atacava diretamente a seita dos saduceus. Eles estavam sendo contrariados publicamente pela pregação de Pedro. Tudo o que eles eram a favor, Pedro pregava contra: falava sobre o evangelho anunciado pelos anjos (Gálatas 1:8), falava sobre o inferno e as consequências após a morte para aqueles que negarem Jesus (Mateus 10:28; Marcos 9:43-48), falava sobre a soberania total de Deus sobre todos, inclusive sobre o “livre-arbítrio” (Romanos 9:18-21), e, principalmente, pregava sobre alguém que ressuscitou dos mortos, Jesus (Atos 4:2, 10; 1 Coríntios 15:12-14). Logicamente, vendo que estavam perdendo o povo para essa nova doutrina, movidos pela inveja, prenderam os dois até que pudessem ser julgados (Atos 5:17-18).

19  Mas, de noite, um anjo do Senhor abriu as portas do cárcere e, conduzindo-os para fora, lhes disse: 20  Ide e, apresentando-vos no templo, dizei ao povo todas as palavras desta Vida.

Notem que a palavra "Vida" está em letra maiúscula, pois o autor deu ênfase a essa palavra. Mas o que isso significa? Bem, "Vida" neste contexto se refere ao evangelho que eles vinham pregando. Esse evangelho estava transformando vidas, trazendo esperança e salvação a todos que ouviam. E essa mensagem, a mensagem desta vida abundante, desta nova vida em Cristo Jesus, não poderia cessar, não poderia deixar de ser anunciada (João 10:10; João 14:6).

21  Tendo ouvido isto, logo ao romper do dia, entraram no templo e ensinavam. Chegando, porém, o sumo sacerdote e os que com ele estavam, convocaram o Sinédrio e todo o senado dos filhos de Israel e mandaram buscá-los no cárcere.

Podemos pensar: “Quanta estupidez, isso não é fé, é estupidez. Acabaram de ser presos e no dia seguinte foram novamente ao mesmo lugar provocar aqueles que, com inveja, os prenderam.” Mas eles não estavam dispostos a obedecer a homens. A mensagem do anjo de Deus foi sem rodeios, direta, simples: voltem lá e continuem a anunciar o evangelho (Atos 5:20).

Diferentemente daqueles homens que abandonaram Jesus, eles corajosamente anunciavam o evangelho. A diferença é que agora eles tinham poder, tinham o Espírito Santo com eles. Sem o Espírito Santo, ninguém busca a Deus, nem um sequer; nem mesmo aqueles que estavam diariamente vendo os milagres de Jesus ficaram ao lado dele (Romanos 3:11).

Hoje temos a misericórdia de Deus e nos mantemos nela graças ao próprio Deus, graças ao Espírito Santo. Não se orgulhem de nada, é tudo pela misericórdia dele (Efésios 2:8-9).

22  Mas os guardas, indo, não os acharam no cárcere; e, tendo voltado, relataram, 23  dizendo: Achamos o cárcere fechado com toda a segurança e as sentinelas nos seus postos junto às portas; mas, abrindo-as, a ninguém encontramos dentro.

Pense na vergonha e no temor desses homens, do sumo sacerdote e dos saduceus, diante de muitas autoridades do povo. O Sinédrio pode ser comparado hoje ao Supremo Tribunal Federal, a autoridade máxima, com poder de julgar tanto pessoas religiosas quanto civis. O Senado dos filhos de Israel era composto por grupos de anciãos representando as tribos de Israel, todos aguardando para julgar esses homens que estavam pregando a ressurreição de um homem que se dizia ser o Messias.

Para a surpresa de todos, os guardas relataram que esses homens não estavam mais na cadeia. As portas estavam trancadas, todos os seguranças devidamente posicionados, mas a cela estava vazia (Atos 5:21-23).

 24  Quando o capitão do templo e os principais sacerdotes ouviram estas informações, ficaram perplexos a respeito deles e do que viria a ser isto.

Ficaram perplexos, cheios de incertezas. Logicamente, estavam ouvindo uma pregação diferente da que se ouvia. Estavam vendo sinais sendo realizados diante de seus olhos; por mais que não aceitassem, não podiam negar que algo muito sério estava acontecendo. Estavam saindo da zona de conforto com a pregação desse novo evangelho, sendo contrariados pela nova mensagem que Pedro anunciava (Atos 4:13-14).

25  Nesse ínterim, alguém chegou e lhes comunicou: Eis que os homens que recolhestes no cárcere, estão no templo ensinando o povo.

Isso estava acontecendo diante de todas as autoridades reunidas naquele Sinédrio. Fazia parte do plano de Deus que todas essas autoridades tomassem conhecimento do que estava acontecendo. Por isso, a importância dos apóstolos obedecerem a Deus e pregarem o evangelho como se não houvesse o amanhã. Eles não deixavam nada para depois, não perdiam tempo, anunciavam tudo, quer aceitassem ou não (Atos 4:19-20).

sexta-feira, 12 de julho de 2024

ATOS DOS APÓSTOLOS (5:12-16)

Sinais e Prodígios: Testemunho da Ressurreição de Cristo

12 ¶ Muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos. E costumavam todos reunir-se, de comum acordo, no Pórtico de Salomão.

Os sinais e prodígios realizados serviam para testemunhar ao povo que o testemunho que davam da ressurreição de Jesus Cristo era verdadeiro, era uma espécie de prova que Deus concedia ao povo, mas isso não era regra (Atos 2:22, Hebreus 2:4). Assim como o próprio Cristo falou que felizes são aqueles que acreditam sem ver (João 20:29), muitas passagens também destacam a aceitação do testemunho de Paulo e de outros apóstolos sem nem mesmo haver algum sinal ou prodígio, fruto apenas da exposição da palavra de Deus e do convencimento das pessoas perante as Escrituras que Jesus era o Cristo, o Messias prometido que tanto aguardavam (Romanos 10:17, Atos 17:2-3).

O local de reunião dos irmãos acontecia no Pórtico de Salomão. Este espaço era significativo para os judeus e tornou-se também para os cristãos, que se reuniam ali com outros seguidores de Cristo para orar, ensinar e realizar milagres (Atos 3:11, Atos 5:12).

O Pórtico de Salomão oferecia uma grande área coberta, protegida do sol e da chuva, permitindo que grandes grupos de pessoas se reunissem para ouvir os ensinamentos dos apóstolos. A presença constante dos apóstolos no Pórtico de Salomão proporcionava uma visibilidade pública significativa, ajudando a espalhar a mensagem do Evangelho para muitos que visitavam o Templo.

13  Mas, dos restantes, ninguém ousava ajuntar-se a eles; porém o povo lhes tributava grande admiração.

Todo o povo tinha conhecimento do que viera a acontecer com Ananias e Safira. O casal mentiu ao Espírito Santo, e o desfecho trágico da história causou temor a toda a população (Atos 5:1-11). Ninguém ousava se ajuntar com eles, pois a igreja primitiva demonstrava, através desse episódio, que hipocrisia e um falso comprometimento com Deus não eram aceitos ou tolerados. Somente aqueles que se envolvessem seriamente com Deus poderiam participar do grupo. Esse temor e respeito eram frutos do verdadeiro comprometimento e temor a Deus que as primeiras comunidades cristãs tinham em sua doutrina.

Apesar do medo de participar do grupo, o povo respeitava e admirava os cristãos. Este respeito vinha do fato de constatarem que o grupo era validado por Deus através de sinais e prodígios (Atos 2:43, Atos 5:12), mas também pela integridade e seriedade que os cristãos demonstravam e pregavam, não dando margem à falsidade e hipocrisia. Este respeito era uma prova do impacto positivo e transformador que a igreja estava tendo na sociedade, mesmo entre aqueles que ainda não eram membros.

A resposta dos que não ousavam se juntar à igreja demonstra a seriedade com que a vida espiritual deve ser tratada. É importante que os crentes vivam com uma reverência saudável a Deus, entendendo a santidade e a seriedade de seguir a Cristo (Filipenses 2:12, Hebreus 12:28).

14  E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor,

Mas o temor a Deus não diminuía ou afastava os verdadeiros filhos de Deus; pelo contrário, a igreja, mesmo debaixo de tamanho temor e respeito por todos, crescia em multidão. Isso vai de encontro com o que alguns pensam, de que o temor afasta os filhos de Deus. Há de se estudar qual tipo de temor estamos falando. O temor ou o medo pelo que vai acontecer no final dos tempos, esse sim é abordado e de certa forma condenado pelos apóstolos, pois quem ama a Deus, não teme as consequências, veja o verso abaixo:

"No amor não há medo; ao contrário, o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor." (1 João 4:18).

Pode-se perceber nitidamente que quem cita essa passagem para anular o temor a Deus cita de forma equivocada ou mesmo “criminosa”. Não devemos temer as consequências do grande dia, não devemos temer o que vai acontecer com os salvos em Cristo Jesus (veja o contexto da passagem acima), mas essa passagem ou qualquer outra nunca eliminou ou desfez a importância de temor, reverência e respeito ao nosso Deus e ao nosso Senhor Jesus Cristo (Atos 9:31; Atos 13:26; Efésios 5:21; 2 Coríntios 7:1 Veja também a explanação em Atos 19:17).

15  a ponto de levarem os enfermos até pelas ruas e os colocarem sobre leitos e macas, para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra se projetasse nalguns deles. 16  Afluía também muita gente das cidades vizinhas a Jerusalém, levando doentes e atormentados de espíritos imundos, e todos eram curados.

Não há dúvidas sobre o tremendo poder de Deus sendo operado através desses apóstolos. Os sinais e prodígios realizados por eles não deixavam dúvidas ao povo de que Deus estava com eles e usava desses eventos para aprovar a mensagem que traziam (Atos 2:22; Hebreus 2:4). Devemos ter em mente que todos esses sinais e milagres sobrenaturais tinham um propósito, até mesmo aqueles feitos pelo nosso Senhor Jesus Cristo: validar a sua mensagem e confirmar que o que anunciavam vinha de Deus e estava de acordo com a sua vontade (João 20:30-31; Atos 14:3).

Não tem como negar o poder que o apóstolo Pedro tinha, ou mesmo o poder que foi dado ao apóstolo Paulo, mas esses poderes capazes de realizar grandes sinais eram secundários à mensagem do evangelho. Os milagres existem por causa do evangelho, e não o contrário; não é o evangelho que existe por causa dos milagres. Muitos podem receber a cura de suas enfermidades e, mesmo assim, continuar em pecado e em dívida com Deus (Lucas 17:17-18). Todo aquele que é salvo não necessariamente precisa passar por um evento milagroso ou espetacular para provar à sociedade que aconteceu algo sobrenatural. Muitos salvos em Cristo Jesus, registrados na Bíblia, receberam a salvação por simples exposição das Escrituras Sagradas (Romanos 10:17; 1 Pedro 1:23). Em algumas cidades onde Paulo pregou o evangelho, não foi registrado o evento de sinais e prodígios acontecendo; apenas a palavra os convenceu de que Jesus é o Messias (Atos 17:2-4; Atos 18:4).

O poder que Pedro ou Paulo recebiam de Deus era um sinal de apoio à sua pregação e não um superpoder que pudesse curar a todos como quisessem, ou até mesmo a si próprios. Exemplos bíblicos mostram que alguns apóstolos e cristãos fervorosos enfrentaram enfermidades sem serem curados. Paulo, apesar dos grandes milagres realizados através dele, mencionou um "espinho na carne" que Deus não removeu (2 Coríntios 12:7-9). Timóteo, um jovem pastor, enfrentava frequentes problemas estomacais, para os quais Paulo recomendou um remédio simples, sem prometer cura milagrosa (1 Timóteo 5:23). Trófimo, um companheiro de Paulo, foi deixado doente em Mileto (2 Timóteo 4:20). Esses exemplos reforçam que os sinais e maravilhas eram confirmatórios da mensagem do evangelho e não o foco principal. A salvação, o arrependimento e a fé em Jesus Cristo eram o centro da pregação dos apóstolos, enquanto os milagres serviam apenas como confirmação divina da verdade que anunciavam.

Isso não anula nos dias atuais o poder que Deus, em nome de Jesus, possui para nos livrar de qualquer enfermidade. Podemos alcançar qualquer coisa de acordo com a vontade de Deus (1 João 5:14-15). Jesus nos ensinou a pedir tudo e qualquer coisa a Deus, e às vezes não temos algo porque não pedimos ou porque não sabemos pedir (Mateus 7:7-8; Tiago 4:2-3). Tenha fé.